sábado, 11 de dezembro de 2010

Admirável Mundo Novo


“Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othelo. Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter.” (…) “Sem dúvida. A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma derrota fatal sobre os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.”

(…)

“Em suma,” disse Mustafá Mond, “você reclama o direito de ser infeliz.”
“Pois bem, seja assim!” respondeu o Selvagem em tom de desafio, “Reclamo o direito de ser infeliz.”
“Sem falar do direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter sífilis e cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.”
Estabeleceu-se um longo silêncio.
“Reclamo-os a todos,” disse, por fim, o Selvagem.
Mustafá Mond encolheu os ombros.
“Oferecemo-lhos da melhor vontade,” respondeu.



Por alguma razão, costumava detestar este livro. Faltava-lhe o horror apaixonante que George Orwell deu ao 1984, e faltava-lho tanto que eu adjectivei o livro de “mal escrito” e o pus na prateleira. Mal escrito? Brilhante. O tom seco e imparcial com que Huxley descreve aquele mundo novo – admirável, de facto – de tal modo a que no fim não saibamos o que é bom e o que é mau. E é mau o admirável mundo novo? Terrivelmente assustador que, ao contrario do que se passa na obra de Orwell, não sigamos uma personagem com consciência do mundo em que vive! Ah, quando chegamos ao vim do 1984 não sobra em nós uma sombra de dúvida que, lavagem cerebral ou não, fuzilamento ou não, aquele não é um mundo que possa durar muito! O admirável mundo novo é para sempre. As artes e as ciências foram paralisadas, qualquer pessoa que escape o condicionamento mandado para longe – para seu próprio bem, já que toda a gente sabe que as suas palavras nunca serão mais do que disparates aos ouvidos das massas… E afinal, isto é mau? Isto não é liberdade? Isto não é felicidade? Não consegui ficar chocada. Admito porém que algumas das palavras de Mond sobre o estacionar do progresso revoltaram um pedacinho de qualquer coisa dentro de mim. Porque então acabou? A Humanidade não existe para mais nada? Estagnou? Então acabamos e podemos desaparecer para sempre – ou continuar para sempre com perfeitas vidas pacatas (e para sempre significa para sempre aqui). Não significam ambos o mesmo no contexto Histórico?

É isso então o admirável mundo novo. O Fim da Humanidade. Se alguma coisa me choca é ver a Humanidade acabar antes de atingir o Conhecimento absoluto… Ainda assim, há piores maneiras de Acabar do que a inevitável felicidade eterna.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Le Decline de l'empire americain



(merda para as dobragens espanholas, mas só consegui arranjar esta cena assim)

sábado, 16 de outubro de 2010

domingo, 10 de outubro de 2010

A Paixão de Sacco e Vanzetti

Um livro sem personagens. De vez em quando, se muito preciso para o desenrolar da história, vemos aparecer o jornalista, o professor, o advogado. Nunca aparecem nomes se não os de Sacco e Vanzetti, e mesmo esses, que seriam a uma primeira abordagem vistos como as personagens principais de um livro sobre a sua morte, não são - como personagens - demasiado importantes para o contar da história. A Paixão de Sacco e Vanzetti é sobre o Povo como personagem. Caracteristico de Howard Fast, que já em Spartacus mostrava ideias semelhantes, mas sem concretizar de um modo tão genial. É o povo que sente, que se move na acção. É uma sociedade que condena à morte os dois italianos, é uma sociedade que se movimenta para os salvar - que pessoas individuais desempenharam papeis na história não é relevante, nem Sacco e Vanzetti, que conseguiram mais apenas por morrer que alguma vez sonharam conseguir em vida.

Howard Fast sobe rápido nos meus preferidos.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Quem é educado assim...!

a música de Barata Moura de quando éramos pequeninos :) nada inocente, não senhor



terça-feira, 31 de agosto de 2010

3 - A Preguiça Como Verdade Efectiva do Homem

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"O Capitalismo e o Socialismo têm a mesma preocupação: alcançar a única verdade do estado humano, a preguiça. É esta a verdade que se esconde no mais profundo do inconsciente, mas, sabe-se lá porquê, nunca tal é reconhecido e não existe em parte alguma nenhum sistema que tenha por slogan: "A verdade do teu esforço é o caminho para a preguiça." Em vez disso, existem por todo o lado slogans exaltando o trabalho, donde resulta que o trabalho é inevitável, que é impossível aboli-lo, quando, de facto, é para isso que tendem os sistemas socialistas: aliviar o trabalho dos ombros do individuo. Quanto mais gente trabalhar, menos horas de trabalho haverá e, portanto, mais horas de ócio." 
Kazimir Malevitch

2 - Pequeno Catecismo Para Uso da Classe Inferior

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"Um ateu de boa fé declarou recentemente que seria lamentável tornar infeliz a classe inferior privando-a de religião" 

(...)
"Infelizmente, também ele (Cristo) acreditava no céu e, em vez de mostrar aos trabalhadores e aos oprimidos de que modo podiam melhorar a sua sorte na terra, pregava-lhes o desconhecido."
August Strindberg

1 - O Governo do Povo

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"Se um homem propusesse seriamente que a nação mijasse por procuração, apelidá-lo-iam de louco; e, no entanto, pensar por procuração é uma proposta que entendem, não só sem se espantarem mas até a acolhendo com entusiasmo."

(...)

"Mas não suportam que se reúnam pelos motivos que mais interessam aos homens; não querem permitir-lhes que se reúnam para exercer a sua razão; mas encorajam-nos a reunir-se para fazer profissão de obediência aos dogmas duma religião que exige o sacrifício absoluto da compreensão humana."

John Oswald

A Portrait of the Artist as a Young Man

Alguém não quer que eu acabe o Ulysses. Acho que o vento conseguiu atirar as suas humildes 550 paginas para fora da minha varanda. Este anterior de James Joyce não lhe chega aos calcanhares.

Quando uma única frase chega para uma pessoa acabar:

 "It was his epitaph for all dead friendships and Stephen wondered whether it would ever be spoken in the same tone over his memory. The heavy lumpish phrase sank slowly out of hearing like a stone through a quagmire. Stephen saw it sink as he had seen many another, feeling its heaviness depress his heart."



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

The Trial, Orson Welles

 Quase tão bom como o livro do Kafka, o horror de um mundo só forma, nenhum conteúdo.

A geração de Abril esqueceu-se de educar os filhos.

Até eu, que gabo a minha severa educação de esquerda de boas famílias, tive que me ouvir a dizer as palavras "Não, o nosso vice-presidente não foi eleito" para perceber que a democracia morreu. Durante o momento em que o vice-presidente de facto não foi eleito, eu estava tão ocupada como toda a restante maioria de esquerda da minha faculdade com as pequenas mesquinhices da vida, para sequer me lembrar de morrer um bocadinho por dentro. Tenho, pelo menos, a decência de morrer um bocadinho agora, que é mais do que vi alguém fazer.

"Fascistas não, menino, existem comodistas, fascistas não," disse o senhor do restaurante hoje ao jantar, ao apanhar umas palavras da boca do meu irmão. Mas não. Existem fascistas e os comodistas que se esquecem de reparar, como eu fiz enquanto um vice-presidente não eleito tomava posse à minha frente e eu me esqueci de reparar, demasiado entretida com pensamentos pequenos e piadas juvenis com o rapaz do lado para me deter uns momentos e pensar, Democracia, descansa em paz.

Não é exagero. Agora é uma faculdade (uma faculdade em que todos os alunos são de uma esquerda de merda, deixem-me dizer, se são tão lentos como eu a segurar a democracia) mas daqui a quinze anos vai ser a geração que os pais de Abril se esqueceram de educar que vai governar o mundo. E aí? Quantos vice-presidentes vão ser vice-presidentes por convite? Não, não é exagero. É mesmo assunto para ter muito medo e perceber, enquanto aquele bocadinho de nós finalmente se digna a morrer, que não tarda muito a democracia da aefaup não vai ser a única morta e enterrada. Isto mostra alguma coisa e, amigos, ao menos que alguns de nós estejam acordados. 

Os nossos pais fizeram o 25 de Abril e vão morrer no Fascismo.

A nossa geração chama aos princípios da democracia tecnicismos linguísticos. A nossa geração diz que é moda ser-se de esquerda e acredita que o poder deve estar em quem tem capacidade de liderança. A nossa geração tem medo que os fascistas não gostem de nós. A nossa geração vai fazer merda da grossa em poucos anos.

E eu não posso fazer nada! O meu irmão fala de fuzilar uns quantos... Como se ele não soubesse tão bem como eu que outros tantos subiriam ao poder. Sim, é o comunismo que nos impede de cortar umas cabeças, se é o contexto que faz a pessoa, quantas pessoas é preciso matar para mudar o contexto?

O senhor do restaurante mostra a conta esquiçada num pedaço de papel; "Olha vejam como as coisas andam trocadas - deixem-me brincar um bocadinho - aqui a letra à direita é a minha, a do trabalhador, e a da esquerda é a do capitalista!"

Deixamos-lhe um euro de gorjeta. Discutimos no caminho para casa como ele precisava de um melhor salário, não de esmolas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

terça-feira, 27 de julho de 2010

Provavelmente a melhor coisa de sempre

Imagine superman was red...  Communist red?

domingo, 25 de julho de 2010

Não tentei ver a minha avó uma última vez.
Ao jantar falava-se de testamentos, lulas, ulysses, contas bancárias, comprimidos de cianeto, passos coelho e funerais.
Nós nas famílias ateias damos graças pelo pão e as trivialidades.

Ulysses

"Had Pyrrhus not fallen by a beldam's hand in Argos or Julius Caesar not been knifed to death. They are not to be thought away. Time has branded them and fettered they are lodged in the room of the infinite possibilities they have ousted. But can those have been possible seeing that they never were? Or was that only possible which came to pass? Weave, weaver of the wind."

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Do Bom Velho Brecht

Porque me disseram que o bom velho Brecht não se expõe a si mesmo, e eu tomei a liberdade de discordar:

A tudo o que sentes dá
A menor grandeza.

Ele disse  que sem ti
Não pode viver. Conta pois com que, quando o tornes a encontrar,
Ele te reconheça.

Faz-me pois o favor de não me amares de mais.

Quando fui amado pela última vez, em todo esse tempo
Não recebi a mínima amabilidade.

e de explicar porquê:

A atitude crítica
É por muitos tida como estéril.
Isso provém de eles no Estado
Nada poderem conseguir co'a sua crítica-
Mas o que é uma atitude estéril
É uma atitude fraca. Pela crítica armada
Podem destroçar-se estados.

A regularização dum rio
A enxertia duma árvore de fruto
A educação dum homem
A renovação dum Estado
São exemplos de crítica fértil.
E são também
Exemplos de arte.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Três de Álvaro de Campos - TRÊS

Não tenho sinceridade nenhuma que te dar.
Se te falo, adapto instintivamente frases
A um sentido que me essqueço de ter.

Três de Álvaro de Campos - DOIS

Sim, é claro,
O universo é negro, sobretudo de noite,
Mas eu sou como toda a gente,
Não tenha eu dores de dentes nem calos e as outras dores passam.
Com as outras dores fazem-se versos.
Com as que doem, grita-se


A constituição íntima da poesia
Ajuda muito...
(Como analgésico serve para as dores da alma, que são fracas...)
Deixem-se dormir.

Três de Alvaro de Campos - UM

Porque um trabalho marcado por um professor que nem era meu me fez tirar o livro da prateleira.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.

(Álvaro de Campos)

óóóó-óóóóóóóó-óóóóóóóóóóóóó

(O vento lá fora)

sábado, 10 de julho de 2010

35 anos antes do Kill Bill

 



de François Truffaut, La mariée était en noir

sexta-feira, 9 de julho de 2010

vingança de quem acabou a ver curtas no computador.







domingo, 4 de julho de 2010

casamento dos pequeno burgueses

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia
Ele é o empregado discreto
Ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho
Ele faz o macho irrequito
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte
Até secar a fonte
Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros
Ele tem um caso secreto
Ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos
Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida
Ele tem um velho projeto
Ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias
Até o fim dos dias
Ele às vezes cede um afeto
Ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro
Até um breve futuro
Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez fortuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una

Chico Buarque

Menilmontant, Dimitri Kirsanoff





História mesmo simples, imagem genial, retrato brilhante de emoções.
"Etiquette is etiquette. He kills his mother but he can't wear grey trousers."

James Joyce

sábado, 3 de julho de 2010

Miguel Hernandez

Yo no quiero más luz que tu cuerpo ante el mío:
claridad absoluta, transparencia redonda,
limpidez cuya entraña, como el fondo del río,
con el tiempo se afirma, con la sangre se ahonda.
¿Qué lucientes materias duraderas te han hecho,
corazón de alborada, carnación matutina?
Yo no quiero más día que el que exhala tu pecho.
Tu sangre es la mañana que jamás se termina.
No hay más luz que tu cuerpo, no hay más sol: todo ocaso.
Yo no veo las cosas a otra luz que tu frente.
La otra luz es fantasma, nada más, de tu paso.
Tu insondable mirada nunca gira al poniente.
Claridad sin posible declinar. Suma esencia
del fulgor que ni cede ni abandona la cumbre.
Juventud. Limpidez. Claridad. Transparencia
acercando los astros más lejanos de lumbre.
Claro cuerpo moreno de calor fecundante.
Hierba negra el origen; hierba negra las sienes.
Trago negro los ojos, la mirada distante.
Día azul. Noche clara. Sombra clara que vienes.
Yo no quiero más luz que tu sombra dorada
donde brotan anillos de una hierba sombría.
En mi sangre, fielmente por tu cuerpo abrasada,
para siempre es de noche: para siempre es el día.

    MANDADO QUE MANDO A DON GIL DE LAS CALZAS DE CEDA, a ese que lleva robles a las espaldas del Gil y a las del corazón caca
Al Gil, gili, gilipo, gilipolla,
campana sin metal y sin badajo,
mando un millón de veces al carajo,
pues tanto pus episcopal apoya.

Su estupidez de carne de cebolla,
su ensotanada hiel, su alma de ajo
y su cara de culo y de gargajo
han de ser más quemados que fue Troya.

Vete, mariconazo: se te ha visto
bajo los pantalones el roquete
y bajo la mirada el ano hambriento.

Algún día estarás, me cago en Cristo,
dentro del purgatorio de un retrete
enunciando la mierda con tu aliento.


  Pintada, no vacía:
pintada está mi casa
del color de las grandes
pasiones y desgracias.

Regresará del llanto
adonde fue llevada
con su desierta mesa,
con su ruinosa cama.

Florecerán los besos
sobre las almohadas.
y en torno de los cuerpos
elevará la sábana
su intensa enredadera
nocturna, perfumada.

El odio se amortigua
detrás de la ventana.

Será la garra suave.

Dejadme la esperanza.
    SIGO EN LA SOMBRA, LLENO DE LUZ ¿EXISTE EL DÍA?

    Sigo en la sombra, lleno de luz; ¿existe el día?
    ¿Esto es mi tumba o es mi bóveda materna?
    Pasa el latido contra mi piel como una fría
    losa que germinara caliente, roja, tierna.

    Es posible que no haya nacido todavía,
    o que haya muerto siempre. La sombra me gobierna.
    Si esto es vivir, morir no sé yo qué sería,
    ni sé lo que persigo con ansia tan eterna.

    Encadenado a un traje, parece que persigo
    desnudarme, librarme de aquello que no puede
    ser yo y hace turbia y ausente la mirada.

    Pero la tela negra, distante, va conmigo
    sombra con sombra, contra la sombra hasta que ruede
    a la desnuda vida creciente de la nada.


mais Patxi Andion

 “El instante en que mi obra se diluirá en la gente como sangre mestiza en tanta sangre. Cada vez más tenue. Hecha de todos. Olvidado su nombre”



Eres como la mar:
bueno de frente,
peligroso en día gris,
duro y valiente;
llevas en la cabeza
brisas ligeras,
temporal que aún contiene
tu compañera.
Eres como el cantar
de un campesino,
que al cantar va labrando
nuestro camino.
Eres como un dolor
mal repartido,
que se volvió canción
y no quejido.
Eres como la voz
que expende el aire;
eres como un poema
de Miguel Hernández;
y presumes de ser
puro paisano,
de haber sido y de ser
republicano.
Compañero del sol,
fiel compañero,
nunca te preocupó en nada
ser el primero;
eres como el sudor:
callado y quieto,
y nunca abriste el cajón
de tu propio respeto.
Y no quisiste jamás
salvarte solo,
porque no hay salvación - decías -

si no es con todos.
No sabes de venganzas
ni de desquites.
Gorrión que cantó siempre,
aún sin alpiste.
Eres como la sangre,
eres el aire,
la mar, la barca, el remo
y el navegante;
timonel de mi alma,
más que nadie…
y aún eres muchas cosas más
que me callo y me callan…
Padre

intervençao divina

de Elia Suleiman. Palma dourada no festival de Cannes.







terça-feira, 29 de junho de 2010

“Somos sobretudo a memória que temos de nós mesmos”



O viajante está feliz. Nunca na vida teve tão pouca pressa. Senta-se na beira de um destes túmulos, afaga com as pontas dos dedos a superfície da água, tão fria e tão viva, e, por um momento, acredita que vai decifrar todos os segredos do mundo. É uma ilusão que o assalta de longe em longe, não lho levem a mal.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

(tenho saudades de pessoas como de ler um livro pela primeira vez)

sábado, 12 de junho de 2010

Esquiço de um poema que podia ter sido

De manhã guardei-te-esquiço numa gaveta
Estudo tosco de qualquer coisa que
Podia ter sido num pedaço de cartão
(Tu-esquiço, não desenho não acabado)
Procura rápida fugaz descontrolada para
Te-Esquiço conhecer e depois
Te-Esquiço guardar numa gaveta

Fugir
De tudo-o-não-desenhado

segunda-feira, 7 de junho de 2010

"Devia passar a ter febre em vez de beber.

A ressaca é ao mesmo tempo que a cegueira."

domingo, 30 de maio de 2010



domingo, 23 de maio de 2010

sábado, 22 de maio de 2010

Voyage avec Monsieur Monsieur

Avec Monsieur Monsieur
je m'en vais en voyage.
Bien qu'ils n'existent pas
je port leurs bagages.
Je suis seul ils sont deux.

Lorsque le train démarre
je vois sur leur visage
la satisfaction
de rester immobiles
quand tout fuit autour d'eux.

Comme ils sont face à face
chacun a ses raisons.
L'un dit: les choses viennent
et l'autre: elles s'en vont.

Quand le train les dépasse
est-ce que les maisons
subsistent ou s'effacent?
moi je dis qu'après nous
ne reste rien du tout.

- Voyez comme vous êtes!
lui répond le premier,
pour vous rien ne s'arrête
moi je vois l'horizon
de champs et de villages
longuement persister.
Nous sommes le passage
nous sommes la fumée...

C'est ainsi qu'ills devisent
et la discussion
deviente si difficile
qu'ils perdent la raison.

Alors le train s'arrête
avec le paysage
alors tout se confond.

Jean Tardieu

quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Nuvem de Calças, Parte 1

(Acordei com um desejo intenso de ler A Nuvem de Calças. Desdenhei sempre esta primeira parte - não falava de revolução - só percebi hoje como é complexa a batalha que se trava dentro dele entre sentimentos de desespero e ciúme, e desejos de grandeza e de ser útil ao mundo! Maiakovsky conseguiu, obviamente, aliar os dois. E basta ler este poema e perceber que até ele era humano. A Nuvem de Calças, o poema da minha vida. É enorme, mas leiam-no.)


A mente vossa,
em molento miolo divagando
como nédio lacaio em poltrona sebosa,
vou atiçar com o coração sangrando:
rirei até fartar, mordaz e desfaçado.

Na alma não tenho uma só cã
ou ternura senil.
Aturdo o mundo com o poder da minha voz,
e avanço, sedutor,
nos meus vinte e dois anos.

Ternos amantes!
Vós competis com o violino
e com timbales competem os boçais.
Mas como eu não podeis fazer?
Ser todo lábios, sem pesado corpo?

      Das vossas salas de fausto,
do clube angelical membros preclaros,
vinde escutar, vinde saber.
Vinde, vós, que lábios folheais
como a cozinheira um livro de receitas.

Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom,
se quiserem,
serei impecavelmente delicado,
não serei homem, mas uma nuvem de calças!

Não acredito que haja uma Nice florida!
Hoje de novo canto a glória
dos homens que o pecado fez malignos
e das mulheres gastas como lugares comuns.

1

Acham que é um delirio de malária?

Mas isto aconteceu:
aconteceu em Odessa.

Disse Maria: "Virei às quatro."

    Mas deram as oito.
E deram as nove.
E deram as dez.

E a tarde
da janela fugiu
para o nocturno horror,
umbroso
e dezembrino.

Nas suas costas caducas riem e galhofam
candelabros.

Ninguém me poderia agora reconhecer:
este gigante musculoso,
que geme
e se contorce.
Que pode querer tal colosso?
Mas o colosso que bem quer!

Que importância tem
ser de bronze
com o coração de ferro frio!
De noite quero ocultar
o meu metal
em algo suave e feminil.

    E eis
que desmarcado
me debruço à janela,
fundindo o vidro com a testa.
O amor virá ou não virá?
Será
grande ou pequeno?
Como pode ser grande num brutamontes destes?
Terá de ser pequeno,
um amorzinho dócil,
que se assusta com a buzinas dos carros
e adora as campainhas dos electricos.

Cada vez mais
o rosto afundo
no semblante bexigoso da chuva,
e aguardo,
salpicado pelo fragor da rua.

A meia noite, com uma faca,
chegou,
o dia apunhalou -
e pronto!

E caíram as doze badaladas
como do cepo cabeças degoladas.

     Nos vidros se juntavam
cínzeas gotas de chuva,
formando uma careta deformada,
uivando quais quimeras
de Notre Dame de Paris.

Maldito!
Não te chega?
Prestes a boca soltará um grito!

Escuto:
silencioso,
como um doente de cama,
ergueu-se um nervo.
Depois caminhou
lentamente,
a seguir correu,
convulsivamente, cauteloso.
Agora, com mais dois,
sança um fandango insano.

Cai no andar de baixo um bocado de estuque.

Os nervos -
grandes,
pequenos,
- muitos! -
saltam como loucos,
e já
estão de pernas cansadas!

    E a noite penetra-me no quarto:
não posso abrir os olhos de lodo pesados.

Rangem-se as portas de repente
como se o hotel
estivesse a bater o dente.

Tu entraste,
brusca como um desafio,
torturando as luvas de camurça,
e disseste:
"Sabes?
Vou-me casar."

Está bem, casa.
Que queres que faça?
Hei-de me recompor.
Não vês como estou calmo?
Como o meu pulso parece o dum defunto?

Lembras-te
como costumavas dizer:
"jack London,
dinheiro,
amor,
paixão." -
e eu só te via
a ti - Giocconda para roubar!

     E roubaram por fim.

De novo entrei no jogo apaixonado,
iluminaram a curva do meu cenho.
Então?

Numa casa queimada
às vezes vivem vagabundos sem casa!

Ris-te?
"tens menos esmeraldas de loucura
do que há copecas no bolso de um mendigo."
O destino de Pompeia
não olvides
depois de irritarem o Vesúvio!

Eh!
Senhores!
Amantes
de sacrilégios,
crimes
e massacres, -
vistes
o mais cruel dos meus rostos
quando
estou
absolutamente calmo?

    E sinto
que eu próprio
me sou pouco.
E de mim alguém se tenta rir.

Está?
Quem é?
Mamã?
Mamã!
O teu filho está belamente enfermo!

Mamã!
Tem fogo no coração.
Diga às manas, Liúdia e Ólia,
que não tenho para onde ir.
Cada palavra,
mesmo uma graça,
que jorra da minha boca ardente,
salta como uma rameira nia
dum bordel incendiado.

As pessoas fungam:
cheira a queimado.
Chamam a brigada
cintilante
De capacete!
Não se pode entrar de botas!
Digam aos bombeiros:
só com carícias de pode apagar um coração a arder.
Eu próprio
deitarei dos olhos catadupas de lágrimas.
Deixem-me descansar.

Salto? Não salto? Salto?
As lágrimas caíram.
Não se pode escapar ao coração!

No rosto ardente,
dos lábios gretados
um beijo carbonizado quer erguer-se.

Mamã!
Cantar não posso.
Na capela do coração já o coro pega fogo.

Em chamas, figuras de cifras e palavras
saltam do crânio
como crianças duma casa a arder,
com o mesmo terror
com que se ergueram
ao céu
braços acesos no convés do Lusitânia.
Ante a gente tremendo
no silêncio do lar,
um brilho de cem olhos explode do refúgio.
Ó meu último grito, -
pelo menos tu
brada que estou a arder pelos séculos fora.


terça-feira, 27 de abril de 2010


Ya agonizando el presente mes
me siento al fin enfrente de un papel
para escribirte justo hasta la piel aunque no entiendas lo que te diré
Probablemente no te acordarás
ni de mi nombre ni el de aquel café
donde borracho con mi soledad
casi en la puerta te paré y te hablé
tú me miraste y me dejaste hablar
no preguntaste, yo no pregunté después salimos juntos desde el bar
para andar toda la noche al revés
Probablemente no sabrás jamás que nunca fuiste foto de carnet
que tu mayor palabra fue callar y fue la mía
amarte, mujer.
Porque yo te amé aquel anochecer
que fuiste el cuenco donde yo dejé
mi soledad de atrás de antesdeayer,
mis viejas penas y el primer deber.
Tuvo tu casa vocación de hogar y tu
mayor victoria fue saber
que siempre fuiste algo que olvidar de cualquier hombre y en cada café.
Y fuiste el puerto del que yo partí y fuiste el
muelle donde decanté todos los besos que pude fingir todos los sueños que nunca encontré
No fuiste una, fuiste LA MUJER,
que bautizó mi nuevo amanecer
me diste agua, me hiciste café...
yo no recuerdo ya ni si te pagué.
Eres la caja fuerte del amor naciste para, desde, hacia el amor,
eres la amante fiel, la más, verdad,
samaritana de la libertad.
Perdóname la versificación, de tu recuerdo he hecho una canción,
mi mala letra y hasta ese borrón,
perdona el tono y el vocablo "amor".
Probablemente no supe explicar lo que he guardado bien, bien, bien, bien a tu pesar
y que intenté, intenté poner en un papel
en Madrid y agonizando el presente mes

Patxi Andion.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Devia usar sempre cravos no chapéu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

F for Fake

"Our works in stone, in paint, in print, are spared, some of them, for a few decades or a millennium or two, but everything must finally fall in war, or wear away into the ultimate and universal ash - the triumphs, the frauds, the treasures and the fakes. A fact of life: we're going to die. "Be of good heart," cry the dead artists out of the living past. "Our songs will all be silenced, but what of it? Go on singing." Maybe a man's name doesn't matter all that much."

Os primeiros minutos são suficientes para perceber que se está a ver um filme genial.

sábado, 17 de abril de 2010

Hoje ao almoço, o meu pai tirou os óculos, esfregou os olhos e virou-se para mim, "Eva, diz-me o que vais fazer nos próximos cinco minutos." Depois, olhou para o meu irmão, alguns anos mais velho. "E tu, diz-me o que vais fazer nos próximos cinco anos."

Gosto de ainda estar na fase dos cinco minutos da vida.

("Ah, não me façam rir, dói-me muito quando rio.")

Teologia

Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Corrupção dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
É este o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Digere a refeição no paraíso -
Sorrindo, ao ouvir
Deus rezingão a chamar.

Ted Hughes

Ponto Final

Cheguei,
à beira do horizonte.
feito recorte de um monte
de frases por acabar.

José Ervedosa

Mia Couto

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio de conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.



Recuso o leito.
Quero dormir
onde não tenha cabimento.

O problema da cama
é que, tal como no caixão,
ganhamos o tamanho da tábua.

Para sonhar,
prefiro o inteiro chão.

Tenho a sede
do embondeiro:
ao invés de beber,
eu engulo o chão inteiro.



Olhou a paisagem
e seus infinitos.

Depois de inspirar fundo,
perguntou:

- A imagem está óptima.
Mas, não tem legendas?

terça-feira, 6 de abril de 2010

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny
Descontructing Harry, apenas porque é genial.



Let's... Well, it has to be optimistic



An idea for a short story about, um, people in Manhattan who
are constantly creating  
these real, unnecessary,neurotic problems for themselves...
cos it keeps them from dealing with
more unsolvable, terrifying problems about... the universe.

    
                   
Let's...
Well, it has to be optimistic.

domingo, 4 de abril de 2010

não copiemos aos poetas o decadentismo burguês, apaixonemo-nos antes pelo seu amor pela vida, e escrevamos:

Não sejamos decadentes. Somos ainda
Muito novos. Deixemos,
Portanto,
O tabaco e o whisky para a meia idade, e percamo-nos
Na espantosa embriaguez de sentir e ver com a
Intensidade só de quem sente e vê
Pela primeira vez.
Percamo-nos em nós próprios, percebamos
A grandeza de tudo o que é intenso -
- o nosso coração ainda bate -
Descubramos o Mundo, somos
Ainda muito novos para esquecer aspirações de
Grandeza
e o amor pela vida.
Crescamos.
Demos à vida oportunidade de nos desiludir.
Por agora sejamos - o Maior, o mais Forte, o mais Intenso
- o Melhor e o Pior de nós mesmos.

E talvez nós não desiludamos a vida.



(a intensidade da merda e da confusão da vida, as florzinhas orvalhadas - Eva aproveita o tempo que ainda tem para não ser nada)
Procuremos, incansavelmente, os nossos instantes, as nossas horas inteiras, os nossos minutos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

E ele, que tem um fraquinho muito especial por beber vinho dentro de igrejas!


(Malcolm Lowry)

sexta-feira, 19 de março de 2010

O horror sórdido do que, a sós consigo,
Vergonhosa de si, no escuro, cada alma humana pensa.

Álvaro de Campos

sexta-feira, 12 de março de 2010

nessa noite... não!

Ás vezes chego a casa, os meus pais já estão a dormir, eu tenho tanto que trabalhar que vagueio pelas salas, e encontro um livro que nunca tinha visto antes. Por vezes, vêm acompanhados por dedicatórias: 

"Sabes, companheira,

Há momentos que não podemos 
realizar, sem sermos dois."

não houve, para eles, a escolha entre o Grande e o mesquinho. eles tinham a Revolução.

Nem que viesses de rastos, Maria
os cabelos esparsos no meu peito
e os bicos das rosas de seios
contra os meus lábios duros...
nessa noite, não!

Nessa noite
eu e tu, Maria
só com os dedos bem crispados
nas cavilhas metamorfoses dos tactos
em arco-íris de escamas num petróleo de gritos
e a carne minha e tua sentindo na vigília
a carne dos cinturões, Maria.

E as horas soando
no tenso latejar atormentado das veias
apenas o nosso amor apenas como um íman
crescendo nas ruas da cidade
crescendo
crescendo
para cerrar os dentes, Maria
e lutar!

José Craveirinha

quinta-feira, 11 de março de 2010

Colette Magny







Tem musicas muito melhores, a senhora.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Dieter Lammel

Não Poeta Russo 3, como deveria ser, porque parece que alguém me roubou o livro. As minhas Nuvens de Calças têm tendência a ir para um sitio melhor. Vamos acreditar que esta volta.

Friedhelm Gluger

Nunca quis saber de política;
sabia-me bem o café da manhã.

Soldados marchavam; continuava a saber-me bem o café.

Quando me vieram buscar, estava a ler as notícias locais.

Perplexo, deixei o café da manhã
e fui para onde eles mandaram.

É frio o túmulo ao pé de Narvik.
Vejam lá bem o meu problema.

Tenho a certeza que, por mais que eu lhe explique que não, a minha cabeça está completamente convencida que 2+2=5.

Tentei com lápis e rebuçados. Recusa-se a entender.

Nada a fazer, neste momento, a minha cabeça é mais burra que eu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Poeta Russo 2

Hamlet

Acalma-se o tumulto. No palco estou
contra o portal da porta,
ao longe, reconhecendo vagamente
o que o meu tempo pode ainda trazer.

O escuro da noite jorra sobre mim
milhares de olhos que me fitam;
mas Abba, Pai, se essa for a tua vontade,
afasta este cálice dos meus lábios.

Com firmeza o teu desígnio tem o meu amor,
este papel que me deste quero ter;
mas agora encena-se um drama diferente:
poupa-me agora do teu caminho.

E no entanto a ordem dos actos é fica,
o fim do caminho é irreversivel.
Estou só. Agora é o tempo dos Fariseus.
A vida não é como um passeio no campo.

É impróprio ser famose
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.

O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.

Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.

O que é preciso rever
é o destino, não os antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.

E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passoas,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.

Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.

E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.

Boris Pasternak

domingo, 7 de março de 2010

Poeta Russo 1

Com um sorriso irónico, os outros podem julgar-te:
"Bem, e quem nega que tem
                                        talento?"
Mas é tão jovem,
                        tão jovem.
                                      Há outros mais velhos.
Ele vai com tanta pressa atrás de que?"
Abanam a cabeça,
                           com pena:
"Sim a juventude sempre -
                                       que fazer!-
quer parecer mais velha que os seus anos..."
Ouve-os,
            mas não lhes dês ouvidos.
                                                 Amadurece!
Sê igual ao talento e não à idade.
Deixa que às vezes a disparidade te confunda.
Não receies
                 ser jovem e precoce.
Ser jovem e atrasado -
                                 isso é que é mau!
Que os sorrisos irónicos se multipliquem,
e tu, cresce -
                    não tens medo de os fazer rir,
cresce,
          enquanto ainda podes crescer,
depressa,
             enquanto ainda há um sítio para onde ter pressa.



Ievgueni Ievtuchenko


Comprei um livro novo de poetas russos, era barato, tinha uma capa bonita, uma série de poetas desconhecidos e A Nuvem de Calças - que, ao contrario da minha edição antiga, ainda tem todas as páginas (mas não se preocupem, a página que falta está num sitio melhor). Onde quero chegar, no entanto, é a uma coisa muito triste que reparei quando acabei de ler. Existem russos poetas e russas poetas - os russos poetas falam dos burgueses que os foderam, as russas poetas dos homens que as foderam. Vá lá mulheres de antigamente, esperava mais do que isso.

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Principezinho

- Tenho uma profissão terrível. Antigamente, era aceitável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto do dia para dormir...
- As ordens mudaram desde então?
- As ordens não mudaram, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta gira, de ano para ano, cada vez mais depressa, e as ordens não mudaram!

Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 2 de março de 2010

Pensei que quando desistimos de ser Grandes devíamos pelo menos ser bons a ser medíocres. 




- Vá lá, vocês conhecem esta!

"— E aqui tens tu uma existência de homem! Em dez anos não me tem sucedido nada, a não ser quando se me quebrou o faetonte na estrada da Saint-Cloud... Vim no Figaro.
Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
— Falhámos a vida, menino!
— Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «Vou ser assim, porque a beleza está em
ser assim.» E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
(...)
— Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
— Creio que não — disse o Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor..."

- Todos juntos agora!

"— Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
— Espera! exclamou Ega. — Lá vem um americano, ainda o apanhamos.
— Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
— Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
— Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara.
E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
— Ainda o apanhamos!
— Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."




Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho, o Elogio da Mediocridade.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Spartacus

 Porque eu rejeito sempre o conceito da importância do individuo em palavras melhores que as minhas:



Foi uma morte sórdida e horrorosa a de Batiatus, o lanista - assassinado pelo seu próprio escravo; e tê-la-ia talvez evitado, bem como muitas outras coisas, se, depois de abortada a exibição dos sois pares, tivesse morto os dois gladiadores sobreviventes. Caso o fizesse, estaria inteiramente dentro dos seus direitos, pois era uma prática aceite matar os gladiadores que se insubordinavam. É pouco provavel, entretanto, que a morte de Spartacus trouxesse grandes modificações à história de Roma. As forças que o impulsionavam ter-se-iam, simplesmente, manifestado noutro lado. Exactamente como as imagens oníricas de Helena, a jovem romana, que estava, tanto tempo depois, mergulhada num sono povoado de sonhos de culpa, em Villa Salaria, não se referiam especificamente a Spartacus, mas ao escravo que empunha a espada, os próprios sonhos do trácio eram menos uma coisa sua do que as recordações sangrentas e esperanças partilhadas por tantos gladiadores, os homens que viviam e morriam pela espada. Esta poderia ser a resposta a dar àqueles que não compreendiam como fora urdida a revolta de Spartacus. Ela não fora urdida por um, mas por muitos.

Howard Fast

sábado, 27 de fevereiro de 2010

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Quando eu crescer não quero ser arquitecta

Quando eu for o mínimo denominador comum de
Toda a humanidade as coisas vão ser assim: toda
A gente vai continuar a ser
Triste e contente e confusa e miserável e extraordinária e
Todas as outras coisas que as pessoas são,
E eu vou estar em cima de uma caixa de sabão a ser
Simples.

(Afinal,
Sou o mínimo denominador comum de toda a humanidade.)

A coisa mais pequena e a coisa mais simples,
E aquilo que liga toda a Humanidade em
Um só
Elemento:
Eu
Em cima de uma caixa de sabão.
Porque qualquer coisa tão importante como o
Mínimo Denominador Comum de Toda a Humanidade,
Não poderia levantar-se sobre outra coisa qualquer
Que não uma caixa de sabão.

(Afinal,
Ninguém sabe que alguma coisa é importante se não estiver
Sobre uma caixa de sabão – perguntem)

Portanto, quando eu crescer e em vez de ser
Arquitecta
Estiver em cima de uma caixa de sabão,
Não percam dois minutos a pensar.
Saibam
Que sou
Apenas Tudo o que Importa em Toda a Humanidade,
E que vocês, para além de serem também EU
E de terem em vocês o Mínimo Denominador Comum de Toda a Humanidade,
São também todas aquelas coisas que não importam e vos fazem
Chorar e Rir e Pensar.

(Afinal, Não vamos acreditar que choramos e rimos e pensamos
Sobre coisas tão importantes como o que há de mais
SIMPLES
Em toda a Humanidade)

Fiquem apenas contentes por me terem conhecido.




Para aquele que não é um I. e sabe que, quando tiver febre durante a vida toda, vou ser o mínimo denominador comum de toda a humanidade. Se isso não acontecer, ainda vamos dominar o mundo.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os meus pais não aceitaram muito bem a decisão.

"Estrume?" perguntou a minha mãe, "Devias tentar Medicina."

Senhores arquitectos:





sábado, 23 de janeiro de 2010

Injecçao 4 e porque é tão inútil esta discussão sobre a felicidade.

Epistola sobre o suicidio

Suicidar-se
É coisa corriqueira.

Pode-se falar nisso à mulher a dias
Discutir com um amigo os prós e os contras.
Há que evitar um
Certo pathos simpático.
Mas não é preciso fazer disto um dogma.
No entanto, parece-me preferível
O pequeno bluff do costume:
Estar farto de mudar de roupa, ou melhor:
A mulher pôr-lhos
(O que faz um certo efeito aos que se impressionas com essas coisas
E não é demasiado bombástico).
De qualquer modo
Não se deve dar a impressão
De que se dava
Muita importância a si mesmo.

Brecht.