“Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othelo. Não se
podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem
instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes,
conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter.” (…) “Sem dúvida.
A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas
compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como
espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar
satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça,
nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma derrota fatal sobre
os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.”
(…)
“Em suma,” disse Mustafá Mond, “você reclama o direito de
ser infeliz.”
“Pois bem, seja assim!” respondeu o Selvagem em tom de
desafio, “Reclamo o direito de ser infeliz.”
“Sem falar do direito de envelhecer, de ficar feio e
impotente, no direito de ter sífilis e cancro, no direito de não ter de comer,
no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá
acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser
torturado por indizíveis dores de todas as espécies.”
Estabeleceu-se um longo silêncio.
“Reclamo-os a todos,” disse, por fim, o Selvagem.
Mustafá Mond encolheu os ombros.
“Oferecemo-lhos da melhor vontade,” respondeu.
Por alguma razão, costumava detestar este livro. Faltava-lhe
o horror apaixonante que George Orwell deu ao 1984, e faltava-lho tanto que eu
adjectivei o livro de “mal escrito” e o pus na prateleira. Mal escrito?
Brilhante. O tom seco e imparcial com que Huxley descreve aquele mundo novo –
admirável, de facto – de tal modo a que no fim não saibamos o que é bom e o que
é mau. E é mau o admirável mundo novo? Terrivelmente assustador que, ao
contrario do que se passa na obra de Orwell, não sigamos uma personagem com consciência
do mundo em que vive! Ah, quando chegamos ao vim do 1984 não sobra em nós uma
sombra de dúvida que, lavagem cerebral ou não, fuzilamento ou não, aquele não é
um mundo que possa durar muito! O admirável mundo novo é para sempre. As artes
e as ciências foram paralisadas, qualquer pessoa que escape o condicionamento
mandado para longe – para seu próprio bem, já que toda a gente sabe que as suas
palavras nunca serão mais do que disparates aos ouvidos das massas… E afinal,
isto é mau? Isto não é liberdade? Isto não é felicidade? Não consegui ficar
chocada. Admito porém que algumas das palavras de Mond sobre o estacionar do
progresso revoltaram um pedacinho de qualquer coisa dentro de mim. Porque então
acabou? A Humanidade não existe para mais nada? Estagnou? Então acabamos e
podemos desaparecer para sempre – ou continuar para sempre com perfeitas vidas
pacatas (e para sempre significa para sempre aqui). Não significam ambos o
mesmo no contexto Histórico?
É isso então o admirável mundo novo. O Fim da Humanidade. Se
alguma coisa me choca é ver a Humanidade acabar antes de atingir o Conhecimento
absoluto… Ainda assim, há piores maneiras de Acabar do que a inevitável felicidade
eterna.
3 comentários:
"Ah, quando chegamos ao vim do 1984 não sobra em nós uma sombra de dúvida que, lavagem cerebral ou não, fuzilamento ou não, aquele não é um mundo que possa durar muito!"
Cheguei ao fim do livro exactamente com a impressão contrária. Uma vez atingido, aquele mundo figura-se infinito..
hmm, o meu idealismo tem de discordar: quando as pessoas são infelizes e têm noção que as coisas estão mal, as coisas mais cedo ou mais tarde mudam ^^ O que é assustador no Admiravel Mundo Novo é que elas são de facto felizes..
e o que aconteceu a um winston idealista? :p
(o outro ainda não li... por agora hemingway :))
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