quarta-feira, 28 de abril de 2010

A Nuvem de Calças, Parte 1

(Acordei com um desejo intenso de ler A Nuvem de Calças. Desdenhei sempre esta primeira parte - não falava de revolução - só percebi hoje como é complexa a batalha que se trava dentro dele entre sentimentos de desespero e ciúme, e desejos de grandeza e de ser útil ao mundo! Maiakovsky conseguiu, obviamente, aliar os dois. E basta ler este poema e perceber que até ele era humano. A Nuvem de Calças, o poema da minha vida. É enorme, mas leiam-no.)


A mente vossa,
em molento miolo divagando
como nédio lacaio em poltrona sebosa,
vou atiçar com o coração sangrando:
rirei até fartar, mordaz e desfaçado.

Na alma não tenho uma só cã
ou ternura senil.
Aturdo o mundo com o poder da minha voz,
e avanço, sedutor,
nos meus vinte e dois anos.

Ternos amantes!
Vós competis com o violino
e com timbales competem os boçais.
Mas como eu não podeis fazer?
Ser todo lábios, sem pesado corpo?

      Das vossas salas de fausto,
do clube angelical membros preclaros,
vinde escutar, vinde saber.
Vinde, vós, que lábios folheais
como a cozinheira um livro de receitas.

Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom,
se quiserem,
serei impecavelmente delicado,
não serei homem, mas uma nuvem de calças!

Não acredito que haja uma Nice florida!
Hoje de novo canto a glória
dos homens que o pecado fez malignos
e das mulheres gastas como lugares comuns.

1

Acham que é um delirio de malária?

Mas isto aconteceu:
aconteceu em Odessa.

Disse Maria: "Virei às quatro."

    Mas deram as oito.
E deram as nove.
E deram as dez.

E a tarde
da janela fugiu
para o nocturno horror,
umbroso
e dezembrino.

Nas suas costas caducas riem e galhofam
candelabros.

Ninguém me poderia agora reconhecer:
este gigante musculoso,
que geme
e se contorce.
Que pode querer tal colosso?
Mas o colosso que bem quer!

Que importância tem
ser de bronze
com o coração de ferro frio!
De noite quero ocultar
o meu metal
em algo suave e feminil.

    E eis
que desmarcado
me debruço à janela,
fundindo o vidro com a testa.
O amor virá ou não virá?
Será
grande ou pequeno?
Como pode ser grande num brutamontes destes?
Terá de ser pequeno,
um amorzinho dócil,
que se assusta com a buzinas dos carros
e adora as campainhas dos electricos.

Cada vez mais
o rosto afundo
no semblante bexigoso da chuva,
e aguardo,
salpicado pelo fragor da rua.

A meia noite, com uma faca,
chegou,
o dia apunhalou -
e pronto!

E caíram as doze badaladas
como do cepo cabeças degoladas.

     Nos vidros se juntavam
cínzeas gotas de chuva,
formando uma careta deformada,
uivando quais quimeras
de Notre Dame de Paris.

Maldito!
Não te chega?
Prestes a boca soltará um grito!

Escuto:
silencioso,
como um doente de cama,
ergueu-se um nervo.
Depois caminhou
lentamente,
a seguir correu,
convulsivamente, cauteloso.
Agora, com mais dois,
sança um fandango insano.

Cai no andar de baixo um bocado de estuque.

Os nervos -
grandes,
pequenos,
- muitos! -
saltam como loucos,
e já
estão de pernas cansadas!

    E a noite penetra-me no quarto:
não posso abrir os olhos de lodo pesados.

Rangem-se as portas de repente
como se o hotel
estivesse a bater o dente.

Tu entraste,
brusca como um desafio,
torturando as luvas de camurça,
e disseste:
"Sabes?
Vou-me casar."

Está bem, casa.
Que queres que faça?
Hei-de me recompor.
Não vês como estou calmo?
Como o meu pulso parece o dum defunto?

Lembras-te
como costumavas dizer:
"jack London,
dinheiro,
amor,
paixão." -
e eu só te via
a ti - Giocconda para roubar!

     E roubaram por fim.

De novo entrei no jogo apaixonado,
iluminaram a curva do meu cenho.
Então?

Numa casa queimada
às vezes vivem vagabundos sem casa!

Ris-te?
"tens menos esmeraldas de loucura
do que há copecas no bolso de um mendigo."
O destino de Pompeia
não olvides
depois de irritarem o Vesúvio!

Eh!
Senhores!
Amantes
de sacrilégios,
crimes
e massacres, -
vistes
o mais cruel dos meus rostos
quando
estou
absolutamente calmo?

    E sinto
que eu próprio
me sou pouco.
E de mim alguém se tenta rir.

Está?
Quem é?
Mamã?
Mamã!
O teu filho está belamente enfermo!

Mamã!
Tem fogo no coração.
Diga às manas, Liúdia e Ólia,
que não tenho para onde ir.
Cada palavra,
mesmo uma graça,
que jorra da minha boca ardente,
salta como uma rameira nia
dum bordel incendiado.

As pessoas fungam:
cheira a queimado.
Chamam a brigada
cintilante
De capacete!
Não se pode entrar de botas!
Digam aos bombeiros:
só com carícias de pode apagar um coração a arder.
Eu próprio
deitarei dos olhos catadupas de lágrimas.
Deixem-me descansar.

Salto? Não salto? Salto?
As lágrimas caíram.
Não se pode escapar ao coração!

No rosto ardente,
dos lábios gretados
um beijo carbonizado quer erguer-se.

Mamã!
Cantar não posso.
Na capela do coração já o coro pega fogo.

Em chamas, figuras de cifras e palavras
saltam do crânio
como crianças duma casa a arder,
com o mesmo terror
com que se ergueram
ao céu
braços acesos no convés do Lusitânia.
Ante a gente tremendo
no silêncio do lar,
um brilho de cem olhos explode do refúgio.
Ó meu último grito, -
pelo menos tu
brada que estou a arder pelos séculos fora.


terça-feira, 27 de abril de 2010


Ya agonizando el presente mes
me siento al fin enfrente de un papel
para escribirte justo hasta la piel aunque no entiendas lo que te diré
Probablemente no te acordarás
ni de mi nombre ni el de aquel café
donde borracho con mi soledad
casi en la puerta te paré y te hablé
tú me miraste y me dejaste hablar
no preguntaste, yo no pregunté después salimos juntos desde el bar
para andar toda la noche al revés
Probablemente no sabrás jamás que nunca fuiste foto de carnet
que tu mayor palabra fue callar y fue la mía
amarte, mujer.
Porque yo te amé aquel anochecer
que fuiste el cuenco donde yo dejé
mi soledad de atrás de antesdeayer,
mis viejas penas y el primer deber.
Tuvo tu casa vocación de hogar y tu
mayor victoria fue saber
que siempre fuiste algo que olvidar de cualquier hombre y en cada café.
Y fuiste el puerto del que yo partí y fuiste el
muelle donde decanté todos los besos que pude fingir todos los sueños que nunca encontré
No fuiste una, fuiste LA MUJER,
que bautizó mi nuevo amanecer
me diste agua, me hiciste café...
yo no recuerdo ya ni si te pagué.
Eres la caja fuerte del amor naciste para, desde, hacia el amor,
eres la amante fiel, la más, verdad,
samaritana de la libertad.
Perdóname la versificación, de tu recuerdo he hecho una canción,
mi mala letra y hasta ese borrón,
perdona el tono y el vocablo "amor".
Probablemente no supe explicar lo que he guardado bien, bien, bien, bien a tu pesar
y que intenté, intenté poner en un papel
en Madrid y agonizando el presente mes

Patxi Andion.

domingo, 25 de abril de 2010

25 de Abril

Devia usar sempre cravos no chapéu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

F for Fake

"Our works in stone, in paint, in print, are spared, some of them, for a few decades or a millennium or two, but everything must finally fall in war, or wear away into the ultimate and universal ash - the triumphs, the frauds, the treasures and the fakes. A fact of life: we're going to die. "Be of good heart," cry the dead artists out of the living past. "Our songs will all be silenced, but what of it? Go on singing." Maybe a man's name doesn't matter all that much."

Os primeiros minutos são suficientes para perceber que se está a ver um filme genial.

sábado, 17 de abril de 2010

Hoje ao almoço, o meu pai tirou os óculos, esfregou os olhos e virou-se para mim, "Eva, diz-me o que vais fazer nos próximos cinco minutos." Depois, olhou para o meu irmão, alguns anos mais velho. "E tu, diz-me o que vais fazer nos próximos cinco anos."

Gosto de ainda estar na fase dos cinco minutos da vida.

("Ah, não me façam rir, dói-me muito quando rio.")

Teologia

Não, a serpente não
Seduziu Eva com a maçã.
Tudo isso é simplesmente
Corrupção dos factos.

Adão comeu a maçã.
Eva comeu Adão.
A serpente comeu Eva.
É este o escuro intestino.

A serpente, entretanto,
Digere a refeição no paraíso -
Sorrindo, ao ouvir
Deus rezingão a chamar.

Ted Hughes

Ponto Final

Cheguei,
à beira do horizonte.
feito recorte de um monte
de frases por acabar.

José Ervedosa

Mia Couto

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio de conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.



Recuso o leito.
Quero dormir
onde não tenha cabimento.

O problema da cama
é que, tal como no caixão,
ganhamos o tamanho da tábua.

Para sonhar,
prefiro o inteiro chão.

Tenho a sede
do embondeiro:
ao invés de beber,
eu engulo o chão inteiro.



Olhou a paisagem
e seus infinitos.

Depois de inspirar fundo,
perguntou:

- A imagem está óptima.
Mas, não tem legendas?

terça-feira, 6 de abril de 2010

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça

Mário Cesariny
Descontructing Harry, apenas porque é genial.



Let's... Well, it has to be optimistic



An idea for a short story about, um, people in Manhattan who
are constantly creating  
these real, unnecessary,neurotic problems for themselves...
cos it keeps them from dealing with
more unsolvable, terrifying problems about... the universe.

    
                   
Let's...
Well, it has to be optimistic.

domingo, 4 de abril de 2010

não copiemos aos poetas o decadentismo burguês, apaixonemo-nos antes pelo seu amor pela vida, e escrevamos:

Não sejamos decadentes. Somos ainda
Muito novos. Deixemos,
Portanto,
O tabaco e o whisky para a meia idade, e percamo-nos
Na espantosa embriaguez de sentir e ver com a
Intensidade só de quem sente e vê
Pela primeira vez.
Percamo-nos em nós próprios, percebamos
A grandeza de tudo o que é intenso -
- o nosso coração ainda bate -
Descubramos o Mundo, somos
Ainda muito novos para esquecer aspirações de
Grandeza
e o amor pela vida.
Crescamos.
Demos à vida oportunidade de nos desiludir.
Por agora sejamos - o Maior, o mais Forte, o mais Intenso
- o Melhor e o Pior de nós mesmos.

E talvez nós não desiludamos a vida.



(a intensidade da merda e da confusão da vida, as florzinhas orvalhadas - Eva aproveita o tempo que ainda tem para não ser nada)
Procuremos, incansavelmente, os nossos instantes, as nossas horas inteiras, os nossos minutos.