sábado, 17 de abril de 2010

Mia Couto

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio de conversa.

Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.

Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.



Recuso o leito.
Quero dormir
onde não tenha cabimento.

O problema da cama
é que, tal como no caixão,
ganhamos o tamanho da tábua.

Para sonhar,
prefiro o inteiro chão.

Tenho a sede
do embondeiro:
ao invés de beber,
eu engulo o chão inteiro.



Olhou a paisagem
e seus infinitos.

Depois de inspirar fundo,
perguntou:

- A imagem está óptima.
Mas, não tem legendas?

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