"A minha irmã chegou de Moscovo. Exaltada. Às escondidas, dá-me muitos panfletos. Agradam-me: são audaciosos. Ainda hoje me lembro deles. O primeiro:
Recorda camarada, recorda meu irmão, atira já a espingarda para o chão.
E ainda outro que terminava assim:
Ou então por caminhos diferentes - Para a Alemanha com o filho, a mulher e a mãe...
(sobre o czar)
Era a revolução. Isto era o verso. Versos e revolução ficaram de certo modo associados dentro de mim.

"Nos ouvidos, restos de um baile ardente,
e do Norte - mais cinzento que a neve -
Uma nuvem, escura, rosto de sangue sedento,
mastigava gente mal gostosa.
As horas escorriam, como rude blasfémia,
com uma triste lentidão que dói.
E do céu olhou um traste qualquer
magestosamente como Leão Tolstoi."
"Dantes pensava
que os livros eram feitos assim:
o poeta chegava,
entreabria ligeiramente a boca,
e começava a cantar, inspirado simplório -
e já estava!
Mas acontece
que antes de começar a cantar,
se põe a caminhar, incitado com a agitação,
e revolve-se no lodo do coração
o néscio peixe da imaginação.
Entretanto fervem e saltam as rimas
de amor aos rouxinóis e outras bagatelas,
e a rua se contrai em pantomima -
não tem com quem cantar e descorrer.
Erguem de novo
altivas cidades-torres de Babel,
para que Deus
a escombros as reduza,
os termos bralhando.
A rua aguentava silenciosamente o suplicio,
a ponto de à boca lhe assomar um grito.
Com o seu brado sublevado
se apressavam inchados taxis e ossudas caleças
e piões lhe pisavam o peito mais que a tísica.
A cidade fechou seus caminhos com a sombra.
E quando,
porém,
vomitou sua estreliz na praça,
empurrando os que chegam á porta da igreja-garganta,
pensava:
os coros dos arcanjos
Deus, pilhando, vai castigar!
Mas a rua sentou-se e disse:
"vamos morfar!"
Os Krupps fazem as cidades
com o cenho franzido
e a boca
cheia de palavras como mortos:
só duas vivem, engordando:
"sacana"
e ainda outra qualquer,
parece que - "sopa".
Os poetas,
amolentados com soluços e choros,
abandonam as ruas de melena ao ar:
"Como se pode cantar com tais palavras
a mulher,
o amor,
e as florinhas orvalhadas?""
Vladimir Maikovski