terça-feira, 26 de março de 2013

Quem seguiu arquitectura com o inocente objectivo de mudar o mundo, descobre desapontadamente limitadas as ofertas de emprego.

 “Porque o nosso mundo não é o mesmo que o de Othelo. Não se podem fazer calhambeques sem aço e não se podem fazer tragédias sem instabilidade social. O mundo é estável, agora. As pessoas são felizes, conseguem o que querem e nunca querem aquilo que não podem obter.” (…) “Sem dúvida. A felicidade real parece sempre bastante sórdida quando comparada com as largas compensações que se encontram na miséria. E é evidente que a estabilidade, como espectáculo, não chega aos calcanhares da instabilidade. E o facto de se estar satisfeito não tem nada do encanto mágico de uma boa luta contra a desgraça, nada do pitoresco de um combate contra a tentação ou de uma derrota fatal sobre os golpes da paixão ou da dúvida. A felicidade nunca é grandiosa.”

(…)

“Em suma,” disse Mustafá Mond, “você reclama o direito de ser infeliz.”
“Pois bem, seja assim!” respondeu o Selvagem em tom de desafio, “Reclamo o direito de ser infeliz.”
“Sem falar do direito de envelhecer, de ficar feio e impotente, no direito de ter sífilis e cancro, no direito de não ter de comer, no direito de ter piolhos, no direito de viver no temor constante do que poderá acontecer amanhã, no direito de apanhar a febre tifóide, no direito de ser torturado por indizíveis dores de todas as espécies.”
Estabeleceu-se um longo silêncio.
“Reclamo-os a todos,” disse, por fim, o Selvagem.
Mustafá Mond encolheu os ombros.
“Oferecemo-lhos da melhor vontade,” respondeu.


Por alguma razão, costumava detestar este livro. Faltava-lhe o horror apaixonante que George Orwell deu ao 1984, e faltava-lho tanto que eu adjectivei o livro de “mal escrito” e o pus na prateleira. Mal escrito? Brilhante. O tom seco e imparcial com que Huxley descreve aquele mundo novo – admirável, de facto – de tal modo a que no fim não saibamos o que é bom e o que é mau. E é mau o admirável mundo novo? Terrivelmente assustador que, ao contrario do que se passa na obra de Orwell, não sigamos uma personagem com consciência do mundo em que vive! Ah, quando chegamos ao vim do 1984 não sobra em nós uma sombra de dúvida que, lavagem cerebral ou não, fuzilamento ou não, aquele não é um mundo que possa durar muito! O admirável mundo novo é para sempre. As artes e as ciências foram paralisadas, qualquer pessoa que escape o condicionamento mandado para longe – para seu próprio bem, já que toda a gente sabe que as suas palavras nunca serão mais do que disparates aos ouvidos das massas… E afinal, isto é mau? Isto não é liberdade? Isto não é felicidade? Não consegui ficar chocada. Admito porém que algumas das palavras de Mond sobre o estacionar do progresso revoltaram um pedacinho de qualquer coisa dentro de mim. Porque então acabou? A Humanidade não existe para mais nada? Estagnou? Então acabamos e podemos desaparecer para sempre – ou continuar para sempre com perfeitas vidas pacatas (e para sempre significa para sempre aqui). Não significam ambos o mesmo no contexto Histórico?

É isso então o admirável mundo novo. O Fim da Humanidade. Se alguma coisa me choca é ver a Humanidade acabar antes de atingir o Conhecimento absoluto… Ainda assim, há piores maneiras de Acabar do que a inevitável felicidade eterna.

Nenhum Homem é Estrangeiro

Muitas vezes me pergunto como é que alguém que goste de ler pode ser qualquer coisa que não comunista.


"Não sei porquê, e embora várias bombas tivessem caído tão perto de nós que levámos autênticos duches de areia, tinha a certeza de que nenhuma delas trazia o meu nome. A euforia da travessia e o consequente contentamento dos simpatizantes dos lealistas em todo o mundo - além da República me ter autorizado a telegrafar o que quisesse - todas essas circunstâncias felizes me davam a certeza de sobreviver. Não era, pura e simplesmente, altura de morrer.
Mas, fosse aonde fosse que me dirigisse em Espanha, via a coragem e a morte de braço dadi. Homens conhecidos, falavam e brincavam connosco num dia, conversavam acerca de tudo e mais alguma coisa, e quando voltávamos a ouvir falar deles tinham morrido."

"""Sobe na vida!", exortam-nos os mais velhos, ao passo que o trabalhador aprendeu, ou está a aprrender, que não pode subir na vida a não ser que o seu companheiro de forja ou de linha de montagem suba simultaneamente com ele. As severas circunstâncias da sua vida permitem ao trabalhador compreender e respeitar a palavra "solidariedade", a mais sagrada de todas as palavras. A primeira pessoa do singular predomina com excessiva frequência na mente da classe média."

Joseph North

A História do século XX no livro que provavelmente me ensinou mais.

A Condição Humana

A condição da morte obriga-nos a justificar as nossas vidas. Aqui, durante 250 páginas, acompanha-se a tortuosa e lenta derrota daqueles que a justificaram tentando mudar o mundo - se a presença da morte não nos pressionasse, seriamos tão compelidos a agir?

"(...) "Não acha que é uma estupidez característica da espécie humana que um homem que só tem uma vida possa perdê-la por uma ideia?"
"É muito raro que um homem possa suportar, como hei-de dizer, a sua condição de homem."
Pensou numa das ideias de Kyo: tudo aquilo porque os homens aceitam deixar-se matar, para além do interesse, tende mais ou menos confusadamente a justificar essa condição, fundamentando-a na dignidade: cristianismo para o escraco, nação para o cidadão, comunismo para o operário."

"Teria combatido pelo que, no seu tempo, estaria cheio do sentido mais forte e da maior esperança; morria entre aqueles que quisera fazer viver; morria, como cada um destes homens deitados, por ter dado um sentida á vida. De que valeria uma vida pela qual nao aceitasse morrer?"