E ele, que tem um fraquinho muito especial por beber vinho dentro de igrejas!
(Malcolm Lowry)
quinta-feira, 25 de março de 2010
sexta-feira, 19 de março de 2010
sexta-feira, 12 de março de 2010
nessa noite... não!
Ás vezes chego a casa, os meus pais já estão a dormir, eu tenho tanto que trabalhar que vagueio pelas salas, e encontro um livro que nunca tinha visto antes. Por vezes, vêm acompanhados por dedicatórias:
"Sabes, companheira,
Há momentos que não podemos
realizar, sem sermos dois."
não houve, para eles, a escolha entre o Grande e o mesquinho. eles tinham a Revolução.
não houve, para eles, a escolha entre o Grande e o mesquinho. eles tinham a Revolução.
Nem que viesses de rastos, Maria
os cabelos esparsos no meu peito
e os bicos das rosas de seios
contra os meus lábios duros...
nessa noite, não!
Nessa noite
eu e tu, Maria
só com os dedos bem crispados
nas cavilhas metamorfoses dos tactos
em arco-íris de escamas num petróleo de gritos
e a carne minha e tua sentindo na vigília
a carne dos cinturões, Maria.
E as horas soando
no tenso latejar atormentado das veias
apenas o nosso amor apenas como um íman
crescendo nas ruas da cidade
crescendo
crescendo
para cerrar os dentes, Maria
e lutar!
José Craveirinha
quinta-feira, 11 de março de 2010
quarta-feira, 10 de março de 2010
Dieter Lammel
Não Poeta Russo 3, como deveria ser, porque parece que alguém me roubou o livro. As minhas Nuvens de Calças têm tendência a ir para um sitio melhor. Vamos acreditar que esta volta.
Friedhelm Gluger
Nunca quis saber de política;
sabia-me bem o café da manhã.
Soldados marchavam; continuava a saber-me bem o café.
Quando me vieram buscar, estava a ler as notícias locais.
Perplexo, deixei o café da manhã
e fui para onde eles mandaram.
É frio o túmulo ao pé de Narvik.
Friedhelm Gluger
Nunca quis saber de política;
sabia-me bem o café da manhã.
Soldados marchavam; continuava a saber-me bem o café.
Quando me vieram buscar, estava a ler as notícias locais.
Perplexo, deixei o café da manhã
e fui para onde eles mandaram.
É frio o túmulo ao pé de Narvik.
segunda-feira, 8 de março de 2010
Poeta Russo 2
Hamlet
Acalma-se o tumulto. No palco estou
contra o portal da porta,
ao longe, reconhecendo vagamente
o que o meu tempo pode ainda trazer.
O escuro da noite jorra sobre mim
milhares de olhos que me fitam;
mas Abba, Pai, se essa for a tua vontade,
afasta este cálice dos meus lábios.
Com firmeza o teu desígnio tem o meu amor,
este papel que me deste quero ter;
mas agora encena-se um drama diferente:
poupa-me agora do teu caminho.
E no entanto a ordem dos actos é fica,
o fim do caminho é irreversivel.
Estou só. Agora é o tempo dos Fariseus.
A vida não é como um passeio no campo.
É impróprio ser famose
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.
O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.
Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.
O que é preciso rever
é o destino, não os antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.
E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passoas,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.
Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.
E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.
Boris Pasternak
Acalma-se o tumulto. No palco estou
contra o portal da porta,
ao longe, reconhecendo vagamente
o que o meu tempo pode ainda trazer.
O escuro da noite jorra sobre mim
milhares de olhos que me fitam;
mas Abba, Pai, se essa for a tua vontade,
afasta este cálice dos meus lábios.
Com firmeza o teu desígnio tem o meu amor,
este papel que me deste quero ter;
mas agora encena-se um drama diferente:
poupa-me agora do teu caminho.
E no entanto a ordem dos actos é fica,
o fim do caminho é irreversivel.
Estou só. Agora é o tempo dos Fariseus.
A vida não é como um passeio no campo.
É impróprio ser famose
pois não é isso que eleva.
E não vale a pena ter arquivos
nem perder tempo com manuscritos velhos.
O caminho da criação é a entrega total
e não fazer barulho ou ter sucesso.
Infelizmente, nada significa
como uma alegoria andar de boca em boca.
Mas é preciso viver sem pretensões,
viver de tal modo que no fim de contas
venha até nós um amor ideal
e ouçamos o apelo dos anos que hão-de vir.
O que é preciso rever
é o destino, não os antigos papéis;
lugares e capítulos de uma vida inteira
anotar ou emendar.
E mergulhar no anonimato,
e ocultar nele os nossos passoas,
como foge a paisagem na neblina
em plena escuridão.
Que outros nesse rasto vivo
seguirão o teu caminho passo a passo,
mas tu próprio não deves distinguir
a derrota da vitória.
E não deves por um só instante
recuar ou trair o que tu és,
mas estar vivo, e só vivo,
e só vivo - até ao fim.
Boris Pasternak
domingo, 7 de março de 2010
Poeta Russo 1
Com um sorriso irónico, os outros podem julgar-te:
"Bem, e quem nega que tem
talento?"
Mas é tão jovem,
tão jovem.
Há outros mais velhos.
Ele vai com tanta pressa atrás de que?"
Abanam a cabeça,
com pena:
"Sim a juventude sempre -
que fazer!-
quer parecer mais velha que os seus anos..."
Ouve-os,
mas não lhes dês ouvidos.
Amadurece!
Sê igual ao talento e não à idade.
Deixa que às vezes a disparidade te confunda.
Não receies
ser jovem e precoce.
Ser jovem e atrasado -
isso é que é mau!
Que os sorrisos irónicos se multipliquem,
e tu, cresce -
não tens medo de os fazer rir,
cresce,
enquanto ainda podes crescer,
depressa,
enquanto ainda há um sítio para onde ter pressa.
Ievgueni Ievtuchenko
"Bem, e quem nega que tem
talento?"
Mas é tão jovem,
tão jovem.
Há outros mais velhos.
Ele vai com tanta pressa atrás de que?"
Abanam a cabeça,
com pena:
"Sim a juventude sempre -
que fazer!-
quer parecer mais velha que os seus anos..."
Ouve-os,
mas não lhes dês ouvidos.
Amadurece!
Sê igual ao talento e não à idade.
Deixa que às vezes a disparidade te confunda.
Não receies
ser jovem e precoce.
Ser jovem e atrasado -
isso é que é mau!
Que os sorrisos irónicos se multipliquem,
e tu, cresce -
não tens medo de os fazer rir,
cresce,
enquanto ainda podes crescer,
depressa,
enquanto ainda há um sítio para onde ter pressa.
Ievgueni Ievtuchenko
Comprei um livro novo de poetas russos, era barato, tinha uma capa bonita, uma série de poetas desconhecidos e A Nuvem de Calças - que, ao contrario da minha edição antiga, ainda tem todas as páginas (mas não se preocupem, a página que falta está num sitio melhor). Onde quero chegar, no entanto, é a uma coisa muito triste que reparei quando acabei de ler. Existem russos poetas e russas poetas - os russos poetas falam dos burgueses que os foderam, as russas poetas dos homens que as foderam. Vá lá mulheres de antigamente, esperava mais do que isso.
sexta-feira, 5 de março de 2010
O Principezinho
- Tenho uma profissão terrível. Antigamente, era aceitável. Apagava de manhã e acendia à noite. Tinha o resto do dia para descansar e o resto do dia para dormir...
- As ordens mudaram desde então?
- As ordens não mudaram, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta gira, de ano para ano, cada vez mais depressa, e as ordens não mudaram!
Antoine de Saint-Exupéry
- As ordens mudaram desde então?
- As ordens não mudaram, disse o acendedor. Aí é que está o drama! O planeta gira, de ano para ano, cada vez mais depressa, e as ordens não mudaram!
Antoine de Saint-Exupéry
terça-feira, 2 de março de 2010
Pensei que quando desistimos de ser Grandes devíamos pelo menos ser bons a ser medíocres.
- Vá lá, vocês conhecem esta!
"— E aqui tens tu uma existência de homem! Em dez anos não me tem sucedido nada, a não ser quando se me quebrou o faetonte na estrada da Saint-Cloud... Vim no Figaro.
Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
— Falhámos a vida, menino!
— Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «Vou ser assim, porque a beleza está em
ser assim.» E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
(...)
— Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
— Creio que não — disse o Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor..."
— Falhámos a vida, menino!
— Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto é, falha-se sempre na realidade aquela vida que se planeou com a imaginação. Diz-se: «Vou ser assim, porque a beleza está em
ser assim.» E nunca se é assim, é-se invariavelmente assado, como dizia o pobre marquês. Às vezes melhor, mas sempre diferente.
Ega concordou, com um suspiro mudo, começando a calçar as luvas.
(...)
— Muitas outras coisas dão valor à vida... Isso é uma velha ideia de romântico, meu Ega!
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão...
Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses que se dirigiam só pela razão, não se desviando nunca dela, torturando-se para se manter na sua linha inflexível, secos, hirtos, lógicos, sem emoção até ao fim...
— Creio que não — disse o Ega. — Por fora, à vista, são desconsoladores. E por dentro, para eles mesmos, são talvez desconsolados. O que prova que neste lindo mundo ou tem de se ser insensato ou sem sabor..."
- Todos juntos agora!
"— Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
— Espera! exclamou Ega. — Lá vem um americano, ainda o apanhamos.
— Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
— Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
— Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara.
E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
— Ainda o apanhamos!
— Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."
"— Oh, diabo!... E eu que disse ao Vilaça e aos rapazes para estarem no Bragança, pontualmente, às seis! Não aparecer por aí uma tipóia!...
— Espera! exclamou Ega. — Lá vem um americano, ainda o apanhamos.
— Ainda o apanhamos!
Os dois amigos lançaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojara o charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
— Que raiva ter esquecido o paiozinho! Enfim, acabou-se. Ao menos assentámos a teoria definitiva da existência. Com efeito, não vale a pena fazer um esforço, correr com ânsia para coisa alguma.
Ega, ao lado, ajuntava, ofegante, atirando as pernas magras:
— Nem para o amor, nem para a glória, nem para o dinheiro, nem para o poder...
A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parara.
E foi em Carlos e em João da Ega uma esperança, outro esforço:
— Ainda o apanhamos!
— Ainda o apanhamos!
De novo a lanterna deslizou e fugiu. Então, para apanhar o americano, os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela Rampa de Santos e pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia."
Plantar uma árvore, escrever um livro, ter um filho, o Elogio da Mediocridade.
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