sexta-feira, 12 de março de 2010

nessa noite... não!

Ás vezes chego a casa, os meus pais já estão a dormir, eu tenho tanto que trabalhar que vagueio pelas salas, e encontro um livro que nunca tinha visto antes. Por vezes, vêm acompanhados por dedicatórias: 

"Sabes, companheira,

Há momentos que não podemos 
realizar, sem sermos dois."

não houve, para eles, a escolha entre o Grande e o mesquinho. eles tinham a Revolução.

Nem que viesses de rastos, Maria
os cabelos esparsos no meu peito
e os bicos das rosas de seios
contra os meus lábios duros...
nessa noite, não!

Nessa noite
eu e tu, Maria
só com os dedos bem crispados
nas cavilhas metamorfoses dos tactos
em arco-íris de escamas num petróleo de gritos
e a carne minha e tua sentindo na vigília
a carne dos cinturões, Maria.

E as horas soando
no tenso latejar atormentado das veias
apenas o nosso amor apenas como um íman
crescendo nas ruas da cidade
crescendo
crescendo
para cerrar os dentes, Maria
e lutar!

José Craveirinha

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