quinta-feira, 1 de maio de 2008

Injecção 3

A Solução

Após a insurreição de 17 de Junho
O secretário da União dos Escritores
Fez distribuir panfletos da Alameda Estaline
Em que se lia que, por culpa sua,
O povo perdeu a confiança no governo
E só à custa de esforços redobrados
Poderá recuperá-la.
Mas não seria
Mais simples para o governo
Dissolver o povo
E eleger outro?

Bertolt Brecht

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Injecção 2

Unicamente por causa da desordem crescente

Unicamente por causa da desordem crescente
Nas nossas cidades com as suas lutas de classes
Alguns de nós nestes anos decidimos
Não falar mais dos hgrandes portos, da neve nos telhados, das mulheres,
Do perfume das maçãs maduras na despensa, das impressões da carne,
De tudo o que faz o homem redondo e humano, mas
Falar só da desordem
E portanto ser parciais, secos, enfronhados nos negócios
Da política, e no árido e "indigno" vocabulário
Da economia dialéctica,
Para que esta terrível pesada promiscuidade
Das quedas da neve (elas não são só frias, nós bem o sabemos),
Da exploração, da tentação da carne e da justiça de classes,
Não nos leve à aceitação deste mundo tão diverso
Nem ao prazer das contradições de uma vida tão sangrenta.
Vocês entendem.

Bertolt Brecht

Injecção 1

Elogio do trabalho clandestino

É bonito
Usar da palavra na luta de classes
Clamar alto e bom som pela luta das massas
Pisar os opressores libertar os oprimidos.
Árdua e útil é a pequena tarefa de cada dia
Que secreta e tenaz tece
A rede do partido sob
Os fuzis apontados dos capitalistas:
Falar mas Escondendo o orador.
Vencer mas Escondendo o vencedor.
Morrer mas Dissimulando a morte.
Pela glória, quem não faria grandes coisas?
Mas quem
As faz pelo olvido?
No entanto, o pobre que mal come senta a honra à sua mesa;
Das pequenas cabanas em ruínas
Surge a grandeza irresistivel.
E a glória busca em vão
Os autores do grande feito.
Saí da sombra por um momento
Rostos anónimos, dissimulados, e aceitai
O nosso agradecimento.

Bertolt Brecht

Boas Festas

Foi ainda esta sexta feira que tivemos esta discussão. E eu mantenho: boas festas! E se preferes dar os parabéns ao teu Cristo e celebrar a inutilidade do teu próximo ano, pois fá-lo. Não me podes é impedir de repetir: boas festas.
Posso até aceitar que aches que o teu Deus fez mais pelo Mundo que todos os homens que alguma vez viveram e alguma vez viverão. Perdoa-me, pelo menos, que te injecte Brecht como me injectarias o cheiro dos bolos do teu Natal, e deixa-me cantar Grândola vila moreeena, terra daa fraternidaaade porque aí, ganho sem dúvida ao jingle bells.
Eva
( Por favor, Brech, você que é um perito na matéria dê a sua opinião.
Este homem é um I. Nada mais.) Bertolt Brech

A opera do malandro

Inspirada na Opera dos Três Vinténs de Bertolt Brecht e simplesmente genial

















O malandro/Na dureza Senta à mesa/Do café Bebe um gole/De cachaça Acha graça/E dá no pé O garçom/No prejuízo Sem sorriso/Sem freguês De passagem/Pela caixa Dá uma baixa/No português O galego/Acha estranho Que o seu ganho/Tá um horror Pega o lápis/Soma os canos Passa os danos/Pro distribuidor Mas o frete/Vê que ao todo Há engodo/Nos papéis E pra cima/Do alambique Dá um trambique/De cem mil réis O usineiro/Nessa luta Grita(ponte que partiu) Não é idiota/Trunca a nota Lesa o Brasil/Do Brasil Nosso banco/Tá cotado No mercado/Exterior Então taxa/A cachaça A um preço/Assustador Mas os ianques/Com seus tanques Têm bem mais o/Que fazer E proíbem/Os soldados Aliados/De beber A cachaça/Tá parada Rejeitada/No barril O alambique/Tem chilique Contra o Brasil/Do Brasil O usineiro/Faz barulho Com orgulho/De produtor Mas a sua/Raiva cega Descarrega/No carregador Este chega/Pro galego Nega arrego/Cobra mais A cachaça/Tá de graça Mas o frete/Como é que faz? O galego/Tá apertado Pro seu lado/Não tá bom Então deixa/Congelada A mesada/Do garçom O garçom vê/Um malandro Sai gritando/Pega ladrão E o malandro/Autuado É julgado e condenado culpado Pela situação

domingo, 30 de março de 2008

Ai o Deus, o Deus!

Descobri agora mesmo que na minha biblia, editada em 1800 e tais, o pai nosso estava ensinado assim: Perdoa-nos as nossas dividas como nós perdoamos a quem nos deve. Enquanto que, pelo que me disseram, agora usa-se assim: Perdoai-nos os nossos pecados como nós perdoamos a quem nos ofendeu. Ou qualquer coisa do género, pelo menos, que eu não posso garantir total certeza no que toca a orações! O que me interessa salientar, no entanto, está bem marcado aqui mesmo que as palavras não sejam exactamente as mesmas: A leveza com que mudaram a biblia para que se adaptasse as necessidades capitalistas! Não queriamos um Deus que andasse ai a pregar aos caloteiros pois não?

sexta-feira, 28 de março de 2008

Do Romantismo e do aborrecimento burguês. E da minha cabeça cortada

E mais uma vez encontro palavras para o que penso, ou talvez encontre pensamentos para o que leio, quem sabe. O que me leva a pensar que não é o aborrecimento, esse horrivelmente burguês aborrecimento que faz de mim pouco melhor do que as pessoas horrivelmente burguesas que me aborrecem. E dou por mim com um braço afectadamente sobre a testa e penso, "Que aborrecimento! Quão insossa é a minha pobre vida! Que limitados os meus pensamentos!" E deitar-me-ia sobre o sofá, (que seria branco e dentro do estilo bauhaus, claro) e enrolaria o meu respeitável cabelo anos 20 sobre os dedos, pensando tristemente, "Porque não me levam a sério? Sou tão inteligente!" Claro que o respeitável cabelo anos 20 não ficaria tão respeitável em mim. E isto eu pensaria olhando o espelho simples e limpo que se encontraria em frente ao sofá. "Que aborrecida é a vida! Nada me interessa que eu possa saber, e as coisas que me poderiam interessar são demasiado complicadas para eu as perceber!" Claro que na altura em que estaria deitada no meu sofá branco enrolando o meu cabelo anos 20 com os dedos, já teria idade suficiente para perceber que, de facto, a inteligencia que me permite o aborrecimento é no entanto muitissimo limitada! E então, com lágrimas cristalinas caindo dos meus olhos, eu contentar-me-ia com sonhos de grandeza que não envolvessem nenhuma capacidade cognitiva em especial. "Sim" diria eu, pegando por esta altura num copo de wisky, "Não vou descobrir a cura para o cancro, com certeza não vou chegar a presidente da republica, e estou bastante certa que não sou a próxima Fernando Pessoa!" Beberia um gole com os olhos fechados, apreciaria o sabor intenso e poria qualquer culpa no facto de ser mulher. Porque não é machismo, as mulheres continuam a ser educadas para menos grandeza que os homens. "Mas de qualquer maneira" pensaria eu como ultimo recurso, "Pode sempre haver uma guerra, um regime fascista para derrubar, um cataclismo que me leve daqui para fora mas... Ah... Estou tão aborrecida!" Claro que ao fim de dois ou três copos de wisky eu já estaria mais sóbria. Por essa altura eu saberia já que o unico excitamento na minha vida seria o do amor e das florinhas, do casamento e dos filhinhos pela casa. E partiria o copo ainda meio cheio contra o chão, deixando os cubos de gelo derreterem na carpete. "Quero lá o amor!", e aí a minha voz estaria perto do timbre da Kate Blanchet, "Quero ser Grande! Porque eu hei-de morrer de um tiro ou duma faca de ponta! Se hei-de morrer amanhã morra hoje tanto conta! Toda a vida hei-de dizer morra o homem na batalha!" E outro suspiro enquanto olharia de novo aborrecida o gelo que ainda não teria derretido na carpete. "Apaixonar-se por livros é para as velhas e para as freiras!", recordar-me-ia eu com um sorriso nos lábios, e pousaria o meu exemplar dignamente encadernado dA Mãe sobre um grande monte de livros dignamente encadernados. Voltaria a olhar para o espelho e, aliviada, diria, "Mas eu não sou velha nem freira, e no entanto não há homem no mundo mais apaixonante que Brecht! Querem que os leia a todos, os Grandes, e depois me apaixone pelos mediocres?" e lembrar-me-ia que nem mediocres tinha conhecido ainda, e todos os nem mediocres que teria seriam tão tão a b o r r e c i d o s... "É a evolução natural" pensaria eu, e de facto, de dia para dia seria a inteligencia a ser valorizada, não o cabelo e as roupas e a piada! "E é uma pena! Porque com bons cabelos e boas roupas e muita piada conheço eu muitos... Agora Brecht" Acho que pegaria numa uva, (sim, o cacho de uvas definitivamente encaixa na cena) e daria uma pequena trinca na parte de cima. "A inteligencia não é para mim, o heroismo não é para mim, nem o mediocre amor que consola o povo é para mim! Estou aborrecida! Inutilmente aborrecida! Decadentemente aborrecida! Aborrecida como se aborreceram as esposas dos romanos e se aborreceu a Maria Antonieta! Meus Deus, a Maria Antonieta!" lembrar-me-ia aí por um momento que não acredito em Deus, que desprezo a ideia de Deus tão grandemente como a de felicidade através do amor (então a religião também não é para ti, pois não?) mas apenas durante o breve momento enquanto não estaria a considerar cortar a minha própria cabeça. "Maria Antonieta... Chegamos a isto então! Que baixo é o aborrecimento burguês! E que ridiculo que quem aclama o Modernismo seja estéticamente tão - incomparavelmente - romântica."
Eva

A formiga no carreiro ia em sentido contrário

Canta camarada canta canta que ninguém te afronta que esta minha espada corta dos copos até à ponta

Eu hei-de morrer de um tiro Ou duma faca de ponta Se hei-de morrer amanhã morra hoje tanto conta

Tenho sina de morrer na ponta de uma navalha Toda a vida hei-de dizer Morra o homem na batalha

Viva a malta e trema a terra Aqui ninguém arredou nem há-de tremer na Guerra Sendo um homem como eu sou

Zeca Afonso

domingo, 2 de março de 2008

Vous savez, c'est la vie qui a raison, l'architecte qui a tort.

"É uma questão de construir o que está na raíz do desconforto social de hoje: arquitectura ou revolução. A revolução pode ser evitada." Le Corbusier
Eu não ouço,
Enquanto eles ouvem eu devaneio.
Mas não faz mal
Porque quando eu for poeta ou artista ou matemática,
Vai ser apenas sinal da Minha GENIALIDADE.


domingo, 20 de janeiro de 2008

Bertolt Brecht. (Mas que raio me interessa a fotografia?) Fiquem a saber apenas que faz bater o coração e sentirmo-nos pequenos e mesquinhos e com tanto por fazer... E não é possivel escolher. Fica este porque me lembra o meu irmão.


"Algumas perguntas a um homem bom"

Bom, mas para quê?
Sim, não és venal, mas o raio
Que sobre a casa cai também
Não é venal.
Nunca renegas o que disseste.
Mas que disseste?
És de boa fé, dás a tua opinião.
Que opinião?
Tens coragem.
Contra quem?
És cheio de sabedoria.
Para quem?
Não olhas aos teus interesses.
Aos de quem olhas?
És um bom amigo.
Sê-lo-ás do bom povo?
Escuta pois: nós sabemos
Que és nosso inimigo.
Por isso vamos
Encostar-te ao paredão.
Mas em consideração
Dos teus méritos e das tuas boas qualidades
Escolhemos um bom paredão e vamos fuzilar-te com
Boas balas atiradas por bons fuzis e enterrar-te com
Uma boa pá debaixo de terra boa.

Versos e Revolução

"A minha irmã chegou de Moscovo. Exaltada. Às escondidas, dá-me muitos panfletos. Agradam-me: são audaciosos. Ainda hoje me lembro deles. O primeiro:
Recorda camarada, recorda meu irmão, atira já a espingarda para o chão.
E ainda outro que terminava assim:
Ou então por caminhos diferentes - Para a Alemanha com o filho, a mulher e a mãe...
(sobre o czar) Era a revolução. Isto era o verso. Versos e revolução ficaram de certo modo associados dentro de mim. "Nos ouvidos, restos de um baile ardente, e do Norte - mais cinzento que a neve - Uma nuvem, escura, rosto de sangue sedento, mastigava gente mal gostosa. As horas escorriam, como rude blasfémia, com uma triste lentidão que dói. E do céu olhou um traste qualquer magestosamente como Leão Tolstoi." "Dantes pensava que os livros eram feitos assim: o poeta chegava, entreabria ligeiramente a boca, e começava a cantar, inspirado simplório - e já estava! Mas acontece que antes de começar a cantar, se põe a caminhar, incitado com a agitação, e revolve-se no lodo do coração o néscio peixe da imaginação. Entretanto fervem e saltam as rimas de amor aos rouxinóis e outras bagatelas, e a rua se contrai em pantomima - não tem com quem cantar e descorrer. Erguem de novo altivas cidades-torres de Babel, para que Deus a escombros as reduza, os termos bralhando. A rua aguentava silenciosamente o suplicio, a ponto de à boca lhe assomar um grito. Com o seu brado sublevado se apressavam inchados taxis e ossudas caleças e piões lhe pisavam o peito mais que a tísica. A cidade fechou seus caminhos com a sombra. E quando, porém, vomitou sua estreliz na praça, empurrando os que chegam á porta da igreja-garganta, pensava: os coros dos arcanjos Deus, pilhando, vai castigar! Mas a rua sentou-se e disse: "vamos morfar!" Os Krupps fazem as cidades com o cenho franzido e a boca cheia de palavras como mortos: só duas vivem, engordando: "sacana" e ainda outra qualquer, parece que - "sopa". Os poetas, amolentados com soluços e choros, abandonam as ruas de melena ao ar: "Como se pode cantar com tais palavras a mulher, o amor, e as florinhas orvalhadas?""
Vladimir Maikovski