A geração de Abril esqueceu-se de educar os filhos.
Até eu, que gabo a minha severa educação de esquerda de boas famílias, tive que me ouvir a dizer as palavras "Não, o nosso vice-presidente não foi eleito" para perceber que a democracia morreu. Durante o momento em que o vice-presidente de facto não foi eleito, eu estava tão ocupada como toda a restante maioria de esquerda da minha faculdade com as pequenas mesquinhices da vida, para sequer me lembrar de morrer um bocadinho por dentro. Tenho, pelo menos, a decência de morrer um bocadinho agora, que é mais do que vi alguém fazer.
"Fascistas não, menino, existem comodistas, fascistas não," disse o senhor do restaurante hoje ao jantar, ao apanhar umas palavras da boca do meu irmão. Mas não. Existem fascistas e os comodistas que se esquecem de reparar, como eu fiz enquanto um vice-presidente não eleito tomava posse à minha frente e eu me esqueci de reparar, demasiado entretida com pensamentos pequenos e piadas juvenis com o rapaz do lado para me deter uns momentos e pensar, Democracia, descansa em paz.
Não é exagero. Agora é uma faculdade (uma faculdade em que todos os alunos são de uma esquerda de merda, deixem-me dizer, se são tão lentos como eu a segurar a democracia) mas daqui a quinze anos vai ser a geração que os pais de Abril se esqueceram de educar que vai governar o mundo. E aí? Quantos vice-presidentes vão ser vice-presidentes por convite? Não, não é exagero. É mesmo assunto para ter muito medo e perceber, enquanto aquele bocadinho de nós finalmente se digna a morrer, que não tarda muito a democracia da aefaup não vai ser a única morta e enterrada. Isto mostra alguma coisa e, amigos, ao menos que alguns de nós estejam acordados.
Os nossos pais fizeram o 25 de Abril e vão morrer no Fascismo.
A nossa geração chama aos princípios da democracia tecnicismos linguísticos. A nossa geração diz que é moda ser-se de esquerda e acredita que o poder deve estar em quem tem capacidade de liderança. A nossa geração tem medo que os fascistas não gostem de nós. A nossa geração vai fazer merda da grossa em poucos anos.
E eu não posso fazer nada! O meu irmão fala de fuzilar uns quantos... Como se ele não soubesse tão bem como eu que outros tantos subiriam ao poder. Sim, é o comunismo que nos impede de cortar umas cabeças, se é o contexto que faz a pessoa, quantas pessoas é preciso matar para mudar o contexto?
O senhor do restaurante mostra a conta esquiçada num pedaço de papel; "Olha vejam como as coisas andam trocadas - deixem-me brincar um bocadinho - aqui a letra à direita é a minha, a do trabalhador, e a da esquerda é a do capitalista!"
Deixamos-lhe um euro de gorjeta. Discutimos no caminho para casa como ele precisava de um melhor salário, não de esmolas.