terça-feira, 31 de agosto de 2010

3 - A Preguiça Como Verdade Efectiva do Homem

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"O Capitalismo e o Socialismo têm a mesma preocupação: alcançar a única verdade do estado humano, a preguiça. É esta a verdade que se esconde no mais profundo do inconsciente, mas, sabe-se lá porquê, nunca tal é reconhecido e não existe em parte alguma nenhum sistema que tenha por slogan: "A verdade do teu esforço é o caminho para a preguiça." Em vez disso, existem por todo o lado slogans exaltando o trabalho, donde resulta que o trabalho é inevitável, que é impossível aboli-lo, quando, de facto, é para isso que tendem os sistemas socialistas: aliviar o trabalho dos ombros do individuo. Quanto mais gente trabalhar, menos horas de trabalho haverá e, portanto, mais horas de ócio." 
Kazimir Malevitch

2 - Pequeno Catecismo Para Uso da Classe Inferior

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"Um ateu de boa fé declarou recentemente que seria lamentável tornar infeliz a classe inferior privando-a de religião" 

(...)
"Infelizmente, também ele (Cristo) acreditava no céu e, em vez de mostrar aos trabalhadores e aos oprimidos de que modo podiam melhorar a sua sorte na terra, pregava-lhes o desconhecido."
August Strindberg

1 - O Governo do Povo

O meu irmão fez anos e deu-me uma prenda.

"Se um homem propusesse seriamente que a nação mijasse por procuração, apelidá-lo-iam de louco; e, no entanto, pensar por procuração é uma proposta que entendem, não só sem se espantarem mas até a acolhendo com entusiasmo."

(...)

"Mas não suportam que se reúnam pelos motivos que mais interessam aos homens; não querem permitir-lhes que se reúnam para exercer a sua razão; mas encorajam-nos a reunir-se para fazer profissão de obediência aos dogmas duma religião que exige o sacrifício absoluto da compreensão humana."

John Oswald

A Portrait of the Artist as a Young Man

Alguém não quer que eu acabe o Ulysses. Acho que o vento conseguiu atirar as suas humildes 550 paginas para fora da minha varanda. Este anterior de James Joyce não lhe chega aos calcanhares.

Quando uma única frase chega para uma pessoa acabar:

 "It was his epitaph for all dead friendships and Stephen wondered whether it would ever be spoken in the same tone over his memory. The heavy lumpish phrase sank slowly out of hearing like a stone through a quagmire. Stephen saw it sink as he had seen many another, feeling its heaviness depress his heart."



sexta-feira, 13 de agosto de 2010

The Trial, Orson Welles

 Quase tão bom como o livro do Kafka, o horror de um mundo só forma, nenhum conteúdo.

A geração de Abril esqueceu-se de educar os filhos.

Até eu, que gabo a minha severa educação de esquerda de boas famílias, tive que me ouvir a dizer as palavras "Não, o nosso vice-presidente não foi eleito" para perceber que a democracia morreu. Durante o momento em que o vice-presidente de facto não foi eleito, eu estava tão ocupada como toda a restante maioria de esquerda da minha faculdade com as pequenas mesquinhices da vida, para sequer me lembrar de morrer um bocadinho por dentro. Tenho, pelo menos, a decência de morrer um bocadinho agora, que é mais do que vi alguém fazer.

"Fascistas não, menino, existem comodistas, fascistas não," disse o senhor do restaurante hoje ao jantar, ao apanhar umas palavras da boca do meu irmão. Mas não. Existem fascistas e os comodistas que se esquecem de reparar, como eu fiz enquanto um vice-presidente não eleito tomava posse à minha frente e eu me esqueci de reparar, demasiado entretida com pensamentos pequenos e piadas juvenis com o rapaz do lado para me deter uns momentos e pensar, Democracia, descansa em paz.

Não é exagero. Agora é uma faculdade (uma faculdade em que todos os alunos são de uma esquerda de merda, deixem-me dizer, se são tão lentos como eu a segurar a democracia) mas daqui a quinze anos vai ser a geração que os pais de Abril se esqueceram de educar que vai governar o mundo. E aí? Quantos vice-presidentes vão ser vice-presidentes por convite? Não, não é exagero. É mesmo assunto para ter muito medo e perceber, enquanto aquele bocadinho de nós finalmente se digna a morrer, que não tarda muito a democracia da aefaup não vai ser a única morta e enterrada. Isto mostra alguma coisa e, amigos, ao menos que alguns de nós estejam acordados. 

Os nossos pais fizeram o 25 de Abril e vão morrer no Fascismo.

A nossa geração chama aos princípios da democracia tecnicismos linguísticos. A nossa geração diz que é moda ser-se de esquerda e acredita que o poder deve estar em quem tem capacidade de liderança. A nossa geração tem medo que os fascistas não gostem de nós. A nossa geração vai fazer merda da grossa em poucos anos.

E eu não posso fazer nada! O meu irmão fala de fuzilar uns quantos... Como se ele não soubesse tão bem como eu que outros tantos subiriam ao poder. Sim, é o comunismo que nos impede de cortar umas cabeças, se é o contexto que faz a pessoa, quantas pessoas é preciso matar para mudar o contexto?

O senhor do restaurante mostra a conta esquiçada num pedaço de papel; "Olha vejam como as coisas andam trocadas - deixem-me brincar um bocadinho - aqui a letra à direita é a minha, a do trabalhador, e a da esquerda é a do capitalista!"

Deixamos-lhe um euro de gorjeta. Discutimos no caminho para casa como ele precisava de um melhor salário, não de esmolas.

terça-feira, 3 de agosto de 2010