domingo, 20 de janeiro de 2008

Versos e Revolução

"A minha irmã chegou de Moscovo. Exaltada. Às escondidas, dá-me muitos panfletos. Agradam-me: são audaciosos. Ainda hoje me lembro deles. O primeiro:
Recorda camarada, recorda meu irmão, atira já a espingarda para o chão.
E ainda outro que terminava assim:
Ou então por caminhos diferentes - Para a Alemanha com o filho, a mulher e a mãe...
(sobre o czar) Era a revolução. Isto era o verso. Versos e revolução ficaram de certo modo associados dentro de mim. "Nos ouvidos, restos de um baile ardente, e do Norte - mais cinzento que a neve - Uma nuvem, escura, rosto de sangue sedento, mastigava gente mal gostosa. As horas escorriam, como rude blasfémia, com uma triste lentidão que dói. E do céu olhou um traste qualquer magestosamente como Leão Tolstoi." "Dantes pensava que os livros eram feitos assim: o poeta chegava, entreabria ligeiramente a boca, e começava a cantar, inspirado simplório - e já estava! Mas acontece que antes de começar a cantar, se põe a caminhar, incitado com a agitação, e revolve-se no lodo do coração o néscio peixe da imaginação. Entretanto fervem e saltam as rimas de amor aos rouxinóis e outras bagatelas, e a rua se contrai em pantomima - não tem com quem cantar e descorrer. Erguem de novo altivas cidades-torres de Babel, para que Deus a escombros as reduza, os termos bralhando. A rua aguentava silenciosamente o suplicio, a ponto de à boca lhe assomar um grito. Com o seu brado sublevado se apressavam inchados taxis e ossudas caleças e piões lhe pisavam o peito mais que a tísica. A cidade fechou seus caminhos com a sombra. E quando, porém, vomitou sua estreliz na praça, empurrando os que chegam á porta da igreja-garganta, pensava: os coros dos arcanjos Deus, pilhando, vai castigar! Mas a rua sentou-se e disse: "vamos morfar!" Os Krupps fazem as cidades com o cenho franzido e a boca cheia de palavras como mortos: só duas vivem, engordando: "sacana" e ainda outra qualquer, parece que - "sopa". Os poetas, amolentados com soluços e choros, abandonam as ruas de melena ao ar: "Como se pode cantar com tais palavras a mulher, o amor, e as florinhas orvalhadas?""
Vladimir Maikovski

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