sexta-feira, 28 de março de 2008

Do Romantismo e do aborrecimento burguês. E da minha cabeça cortada

E mais uma vez encontro palavras para o que penso, ou talvez encontre pensamentos para o que leio, quem sabe. O que me leva a pensar que não é o aborrecimento, esse horrivelmente burguês aborrecimento que faz de mim pouco melhor do que as pessoas horrivelmente burguesas que me aborrecem. E dou por mim com um braço afectadamente sobre a testa e penso, "Que aborrecimento! Quão insossa é a minha pobre vida! Que limitados os meus pensamentos!" E deitar-me-ia sobre o sofá, (que seria branco e dentro do estilo bauhaus, claro) e enrolaria o meu respeitável cabelo anos 20 sobre os dedos, pensando tristemente, "Porque não me levam a sério? Sou tão inteligente!" Claro que o respeitável cabelo anos 20 não ficaria tão respeitável em mim. E isto eu pensaria olhando o espelho simples e limpo que se encontraria em frente ao sofá. "Que aborrecida é a vida! Nada me interessa que eu possa saber, e as coisas que me poderiam interessar são demasiado complicadas para eu as perceber!" Claro que na altura em que estaria deitada no meu sofá branco enrolando o meu cabelo anos 20 com os dedos, já teria idade suficiente para perceber que, de facto, a inteligencia que me permite o aborrecimento é no entanto muitissimo limitada! E então, com lágrimas cristalinas caindo dos meus olhos, eu contentar-me-ia com sonhos de grandeza que não envolvessem nenhuma capacidade cognitiva em especial. "Sim" diria eu, pegando por esta altura num copo de wisky, "Não vou descobrir a cura para o cancro, com certeza não vou chegar a presidente da republica, e estou bastante certa que não sou a próxima Fernando Pessoa!" Beberia um gole com os olhos fechados, apreciaria o sabor intenso e poria qualquer culpa no facto de ser mulher. Porque não é machismo, as mulheres continuam a ser educadas para menos grandeza que os homens. "Mas de qualquer maneira" pensaria eu como ultimo recurso, "Pode sempre haver uma guerra, um regime fascista para derrubar, um cataclismo que me leve daqui para fora mas... Ah... Estou tão aborrecida!" Claro que ao fim de dois ou três copos de wisky eu já estaria mais sóbria. Por essa altura eu saberia já que o unico excitamento na minha vida seria o do amor e das florinhas, do casamento e dos filhinhos pela casa. E partiria o copo ainda meio cheio contra o chão, deixando os cubos de gelo derreterem na carpete. "Quero lá o amor!", e aí a minha voz estaria perto do timbre da Kate Blanchet, "Quero ser Grande! Porque eu hei-de morrer de um tiro ou duma faca de ponta! Se hei-de morrer amanhã morra hoje tanto conta! Toda a vida hei-de dizer morra o homem na batalha!" E outro suspiro enquanto olharia de novo aborrecida o gelo que ainda não teria derretido na carpete. "Apaixonar-se por livros é para as velhas e para as freiras!", recordar-me-ia eu com um sorriso nos lábios, e pousaria o meu exemplar dignamente encadernado dA Mãe sobre um grande monte de livros dignamente encadernados. Voltaria a olhar para o espelho e, aliviada, diria, "Mas eu não sou velha nem freira, e no entanto não há homem no mundo mais apaixonante que Brecht! Querem que os leia a todos, os Grandes, e depois me apaixone pelos mediocres?" e lembrar-me-ia que nem mediocres tinha conhecido ainda, e todos os nem mediocres que teria seriam tão tão a b o r r e c i d o s... "É a evolução natural" pensaria eu, e de facto, de dia para dia seria a inteligencia a ser valorizada, não o cabelo e as roupas e a piada! "E é uma pena! Porque com bons cabelos e boas roupas e muita piada conheço eu muitos... Agora Brecht" Acho que pegaria numa uva, (sim, o cacho de uvas definitivamente encaixa na cena) e daria uma pequena trinca na parte de cima. "A inteligencia não é para mim, o heroismo não é para mim, nem o mediocre amor que consola o povo é para mim! Estou aborrecida! Inutilmente aborrecida! Decadentemente aborrecida! Aborrecida como se aborreceram as esposas dos romanos e se aborreceu a Maria Antonieta! Meus Deus, a Maria Antonieta!" lembrar-me-ia aí por um momento que não acredito em Deus, que desprezo a ideia de Deus tão grandemente como a de felicidade através do amor (então a religião também não é para ti, pois não?) mas apenas durante o breve momento enquanto não estaria a considerar cortar a minha própria cabeça. "Maria Antonieta... Chegamos a isto então! Que baixo é o aborrecimento burguês! E que ridiculo que quem aclama o Modernismo seja estéticamente tão - incomparavelmente - romântica."
Eva

1 comentário:

Anónimo disse...

eva.. =) gostei da cena, agora pensei que talvez, se quisesses claro, tornavamos tudo isso tao falsamente real.. tenho um trabalho de video para fazer e o teu cabelo anos 20, o sofá branco dentro do estilo da bauhaus e os copos de wisky que beberias para ficar sobria deixariam encantado o meu professor de video. ah! e apesar de todo o teu aborrecimento não és velha nem feia.

beijinho red balloon *