O livro é brilhante. Retratando a luta de uma aldeiazinha peruana contra o imperialismo americano, varia entre cenas de verdadeira proporção bíblica,
"Já ninguém dormiu nas aldeias. Nessa noite chegou a Rancas o último almocreve (...) "Senhores, esta cerca não diz só respeito a pampa. Este arame caminha por toda a terra. Engole distritos inteiros. Em certos sítios, a gente, fechada, morre de fome e de sede. (...)
Três dias depois chegou o Grande Pânico.
Durante toda a semana se notaram sinais. Em Junín uma vaca pariu um leitão de nove patas. Em Villa de Pasco, ao abrir-se um carneiro, saiu um rato. Ainda na véspera teria sido possível suspeitar do nervosismo dos cães. Alguém lhes terá comunicado que se encerrava o mundo. (...) As pessoas ajoelhavam-se (...). Piedade Jesus Cristo! E acusaram-se. (...) Rancas, de joelhos, ergueu as mão inúteis para os cerrados lábios de Deus."
cenas de ironia deliciosa,
"Uma epidemia açoitou Cerro de Pasco. Um desconhecido vírus infectou os olhos dos habitantes. Um enfermo capaz de assinalar, por exemplo, as manchas de uma ovelha a um quilómetro de distância era incapaz de distinguir uma cerca situada a cem metros. (...) Murmurava-se que o virus vinha da selva. Era a fruta? A gente pobre, os filhos dos mineiros, não conhece o sabor das papaias e maçãs- Os notáveis deleitavam-se com a frescura dos pêssegos e com a doçura das bananas. Talvez por isso, o vírus afectou-os. "
ou, quando a companhia lhes tirou a luz,
"Nove meses depois, a disputa com a Cerro traduziu-se no aumento da curva demográfica. Agradecidos pares sonharam baptizar os novos cidadãos com o nome de harry. Mas a Cerro de Pasco Corporation não soube aproveitar. Teria bastado uma distribuição de roupas ou mesmo de simples cartões de feliciitações- Mas à Casa de Pedra não ocorreu um tão elementar recurso de relações públicas. Assim perdeu a Cerro uma oportunidade."
e cenas de aparente banalidade,
"-Como comem as florezinhas! - e abarcou com os braços o cemitério. - Tantas flores! Flores boas, ricas flores para chpar e comer!"
- Está lindíssimo e cemitério, Dom Alfonso - aceitou Medrano.
- Flores abundantes, ricas flores para alimentar e mastigar - continuou Dom Alfonso.
- Em que estás a pensar, procurador?
- Flores que podem alimentar os carneirinhos."
Em suma, é um livro lindíssimo e ao mesmo tempo terrível de se ler, mas está nos meus favoritos.
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